Friday, November 2, 2007

Teias de Existências (2)

Manhãs solarentas de Inverno…
Dias chuvosos de Verões abrasadores…
Noites de geada em frente da lareira…
Natais frios de céu azul…
Dias que se prolongam para além das suas 24 horas.

Na Segunda o sol brilhou todo o dia e na Quinta o pôr-do-sol iluminou-me os sentidos. Regressei a casa, peguei na câmera e fui trabalhar rodeada de tons rosas alaranjados.
Na Segunda recebi a carta do Henrique. Na Terça as fotos da Melodie. Tudo lembranças de viagens passadas, de momentos que eu não tenho a certeza se acabaram ali ou se propagam no tempo.

Se todo o presente carrega o seu mesmo passado, se o passado se reflecte no futuro e o futuro no passado, então os momentos que não gostamos de deixar para trás podemos na verdade carregá-los connosco, como se nunca tivesse havido uma interrupção em momento algum.

Enquanto viajava várias vezes me disseram que o maior problema do viajante é a constante ansiedade do amanhã - do fazer reservas, tomar decisões sobre o próximo destino, organizar contactos, sonhar com os novos destinos. Assim, enquanto se viaja, uma grande percentagem da existência é projectada de forma contínua num futuro mais ou menos próximo.

Mas então qual será o meu problema agora que vivo grande percentagem da minha existência no passado, só porque há momentos que eu não quero deixar acabar. Será que Walter Benjamin me diria que não há problema - esses mesmos momentos têm as suas projecções neste mesmo instante. Na verdade, o viajar nunca acabou - o que era antes físico é agora mental. Mas Benjamin, será mental suficiente? Eu pertenço ao grupo de seres que vive sempre em função do que ainda está para vir. Isto do passado se projectar neste mesmo instante é complicado para mim. Como posso eu viver o presente agarrada ao passado?

Nas manhãs solarentas todas estas projecções no passado e no futuro desaparecem. As suas sombras são mais ténues… como que se por breves horas não houvesse espaço para zonas sombrias, para inseguranças, para recapitulações. Hoje a manhã começou iluminada e em tons vivos de azul… mas agora, agora que aos poucos a tarde se aproxima, que o anoitecer precose londriono se inicia, a carta do Henrique e as fotos da Melodie, dão voltas num espaço minúsculo que se debate entre aceitar ou ignorar Benjamin.

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Monday, October 22, 2007

Teias de Existências

Watson foi para Espanha. Conheceu Juan que lhe ensinou a tocar flamenco. Conheceu Pilar. Pilar dança flamenco com os olhos ardendo de emoção. As suas chamas contaminam Watson.
Atilla voltou para a América. Ele disse-me que a Europa fica para a próxima vez. Aliás, ele não me disse nada. Eu li nas entrelinhas da sua falta de comunicação.
James continua na Ásia. Era para nos vêrmos no Natal. O seu avião não vai chegar a tempo da minha partida. Caminhos desencontrados fazem com que tenhamos que esperar mais um ano. Talvez nos encontremos no Canadá.
Samuel voltou um mês depois de mim. Ia viajar. Cancelou. Agora mora em Paris com a namorada.
Marx continua enfiado em Londres. Aí passará 36 anos da sua vida. Exílio?

Watson nunca falou comigo, mas eu conheço-o, sigo a sua vida. Normalmente dedico-lhe uns breves minutos antes de me deitar, mas só naquelas noites em que a tranquilidade me rodeia. Saberá ele que eu teria sido uma boa companhia de viagem? Eu facilmente poderia ter ido com ele por caminhos de Espanha em busca de Pilar. Ou simplesmente, em busca do Flamenco. Por vezes sinto que fugir daqui seria bom, mas provavelmente teria que voltar imediatamente a seguir. É fácil sonhar com Espanha e Flamenco quando o Inverno começa aqui.

Atilla sabe que o nosso caminho só se cruza mesmo quando ambos estamos na estrada de mochilas às costas. Agora, o que temos em comum é nada. A vida em Washington é diferente da vida em Lençóis ou mesmo em Salvador. Em Washighton não há ruas com paralelos, nem bailes de samba, axé e forró. Em Washington ninguém gastar 4 horas a subir uma montanha por causa da vista que se tem do seu topo - em Washigton eles têm helicópteros e elevadores para essas situações. Também existe sempre o problema da cachaça de banana. Essa ficou definitivamente no Vale do Pati.

O James que é casado com a Beth e que com ela emigrou para o Canadá e que agora se entretem entre paragens aliatórias na Ásia também foi nosso companheiro no Vale do Pati. Ele não perdeu os seus cigarros na cachoeira como o Atilla. Mas teve que carregar peso extra quando a Beth se sentia muito cansada. Será essa uma das tarefas de quem se casa? Ele também nunca esquecerá a cachaça de banana feita em casa pelo filho da Dona Raquel. Dona Raquel tem 13 netos. Dois deles são jogadores de dominó. Eu perdi todos os jogos que joguei com eles. James também não irá esquecer o nosso encontro em Brasília - umas boas cervejas enquanto nos debatíamos sobre os aspectos negativos do Plano Piloto de Brasília. Beth gosta de bolachas assim como eu.

Samuel teve sorte. A sua viagem durou mais um mês do que a minha. Acabou por ter tempo para seguir parte da minha trilha. Os seus relatos deixavam-me deprimida. Eu queria estar de novo em Salvador. Conhecemo-nos numa noite em que chovia imenso. Trocámos contactos. Agora ele está em Paris. Estive em Paris em 2001. Gostei, e talvez volte no próximo ano. Por agora vou contentar-me com a Europa Central.

Marx tem temperamento de fogo. Se eu o tivesse conhecido provavelmente não teria sobrevivido à sua língua de cobra. Já imagino os desaforos que me diria. Marx era um génio - não só intelectualmente. Ninguém escapava à sua análise crítica. Alguns tiveram que conviver com livros de 300 e 500 páginas dedicados inteiramente à crítica e banalização de trabalhos que levaram uma vida inteira a construír.

Eu tenho dificuldade em saber aonde acaba a ficção e aonde começa a realidade. Na verdade, agora gostava de estar em Espanha com Watson. Mas ele nem imagina sequer que eu existo. Talvez possa encontrar Atilla e James no Alasca. Seria um ambiente oposto ao Brasil. Mas seria um bom começo para a nossa próxima viagem. Samuel está muito ocupado de momento. Estamos a ter experiências muito similares mas em coordenadas geográfica diferentes. O Marx nunca quereria saber da minha vida. Chamar-me-ia de falsa liberal. De atentado real ao comunismo. Diria que a minha educação burguesa estava demasiado entranhada no sangue para poder dar nalguma coisa positiva. Esse seria o preciso instante em que eu diria - ‘Tu também passaste a vida a pregar uma coisa e a viver outra. Não foste tu também em muitos aspectos mais um burguês? Porquê morar em Chelsea quando poderias ter vivido na zona este?’ Ele provavelmente passaria-me a ignorar para sempre nesse mesmo instante. Não me desafiaria para um duelo devido à minha realidade de ser feminino.

Também há a Ana Carolina. A personagem do livro que eu nunca consegui acabar. A história existe… todos as semanas cresce mais um pouco. Mas a minha incapacidade para distinguir ficção de realidade não me permite deixar Ana Carolina existir para além da minha criação abstracta. Talvez Jason me pudesse dar uma ajuda. Ele já criou Watson.

Posted by The Assemblagist at 02:07:51 | Permalink | No Comments »