Tuesday, October 23, 2007

Momentos Virtuais

Eu sou pura projecção duma ilusão real num espaço virtual. Escrevo e divago sobre coisas sobre as quais noutras ocasiões me recusaria a opinar. Opinar é em muitas circunstâncias um defeito a evitar. Lá em casa toda a gente opina. Falamos uns sobre os outros. Gesticulamos. Levantamos a voz. E no fim, uns sentem-se mais realizados do que outros. As opiniões duns tendem sempre a prevalecer sobre a opinião de outros. Lá em casa aprendi que nem sempre a razão ganha. O que conta é mesmo a nossa capacidade de persuasão. 

Aqui eu projecto-me como aquele que prevalece - afinal não tenho ninguém para refutar aquilo que digo. E se tiver, é fácil de ignorar. Basta um clique e tais comentários não desejados são apagados do ecrã.

Na verdade, hoje o que me atormenta o espírito não é a minha atitude opinativa ou não, mas sim a minha existência ‘pós-humana’. No filme ‘Star Treck’, segundo Katherine Hayles, ‘o corpo pode facilmente ser desmaterializado num padrão informativo para se novamente se materializar, sem qualquer alteração no corpo inicial a uma distância remota.’ E hoje, eu questiono-me se esta mesma última materialização poderia ser virtual. Se eu, de forma abstracta, me desmaterializar enquanto corpo físico e me materializar novamente enquanto corpo abstracto… poderei eu continuar a existir enquanto ser físico – mas com duas existências paralelas – aquela física e a abstracta, que se materializa aqui mesmo, enquanto escrevo?

A existência ‘pós-humana’ tão discutida no campo do ‘cybernectics’ dá voltas na minha imaginação – e desejo assim criar uma recriação de algo que nunca deixou de existir no campo físico mas que se pode alienar num campo virtual.

Serão informação e materialidade realidades distintas? Será que a informação em nada depende duma fisicalidade para existir? E será a informação algo mais importante e fundamental do que a materialismo em si mesmo?

Serei eu enquanto ser físico um ser menor do que enquanto um ser informativo?

Sim, porque para ser uma realidade informativa eu não preciso de existir fisicamente. Eu poderia criar um sistema que segue certos padrões de criatividade que de certa forma se regem pelos meus próprios padrões e que após a minha existência física terminasse continuasse o trabalho criativo até aí desenvolvido por mim enquanto ser físico.

Onde estaria então a diferença? Onde estaria então a fronteira entre o que eu sou capaz de criar e o que o sistema que eu construiria seria capaz de desenvolver?

E se eu construísse esse mesmo sistema agora e partir dum certo momento passasse a minha tarefa criativa para as suas mãos, teria eu mais do que uma existência paralela?

Shannon diz que a informação é um padrão, que não requer presença. Se a informação que crio e passo não necessita duma presença real, como poderemos nós confirmar a origem dessa mesma informação? E se o padrão se torna mais importante do que a presença, então a informação torna-se independente e de fácil mobilidade, independente dum mundo real. A informação torna-se então a essência – e torno-me apenas parte dessa condição de virtualidade.

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Tuesday, October 16, 2007

Spaces of Alienation

At different moments and places of my recent life I often found myself in a state of partial or total withdrawn from the surrounding world, in a geographical and non-geographical sense. I felt indifferent, not interested, disaffected, not bother - with the object that either surrounded me in a physical sense or that affected my life directly in a factual way.

I felt alienated. I felt alienated not because I was in a unconfortable position to interact with the other or I could not establish a relationship with the other due to a lack of common ground. I felt alienated just because at that time my interests were others that did not lay in the surrounding reality. I shut down the paths of normal communication - I stopped reading the papers, watching TV and even listening to the radio. I cancelled the contract with my internet provider. I stopped (for that period of time) being interested in Politics, History and even in Sports, so what before had seemed a easy way to keep a link with the outside world (and by this I mean, outside of my own room), suddenly felt like it was no longer necessary.

Alienation is not a matter of conscious choice. It is not like I chose to not be interested or to have a interaction with what surrounds me. Alienation could easily happen over a period of heavy creative creation where the inner world feels wide enough to keep ourselves busy. Alienation could also be an insconcious reaction to external contexts.

I travelled for few months with a small backpack - and over that period of time I felt free. Often, on those days, I felt that freedom had to be linked with the lack of physical possesions that hold us to a place. Happiness had to lay somewhere around the experience of not having ties to places, to things, to people. I talk in the past tense bacause I feel that those moments were moments of transition between a place and another.
I wonder for how long are we able to carry on, moving around without that need of ties. Do we choose consciously to be tied to a place? To have certain responsabilities that will not allow us, without a huge feeling of guilt of parting - of catching the next train or plane, or even ferry to the next town or country.
This I consider as an allienation of my previous physical world.

However while I was traveling I also felt other sort of alienation. The one probably felt more often across society. I will try to call it a ’sight alienation’ - what you do not see does not affect you.
I was on the other side of the sea from where the place I usually call home is. Week after week I felt as I was loosing touch with what was the place I would eventually go back to. This lost of contact was not by any means linked with a lack of means of communication. If I had spent three other months travelling I would not have probably came back.
How could I be interested in what was happening so far away from me? It simply did not affect me or my daily routine. Why should I care with what mum was doing when I was in bed due to time differences?
Of course one can say that this lack of interest is linked with the distance, with the inability to establish direct contact or to create a common ground of understanding.
I found very hard to agree with such arguments. The context I was feeling alienated from had been my home for all of my life. I read the news every day, but I started to read them as an outsider - as an spectator.

I wonder if these is the same sort of experience we establish with what we watch in a television. We are mere spectators. My space is different of the other’s space. I am in the mountains the other is in the desert.
Is the physical location the key factor for alienation at different levels? Is the four side polign the key element, either in the format of a television, computer screen or even the frame of a window?

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Friday, August 31, 2007

O Vazio da Domesticidade

‘O ambiente que nada tem de doméstico, a claridade da iluminação e o recheio anónimo aliviam-nos do que poderia ser o falso reconforto da casa. Talvez seja mais fácil lidar com a tristeza aqui numa sala-de-estar forrada de papel de parede e com fotografias emolduradas, cenário que evoca um refúgio que não nos dá abrigo.’

‘Os personagens (…) não são propriamente hostis ao interior do espaço doméstico, acontece simplesmente, que de uma ou outra de várias maneiras não definidas, a esfera doméstica parece tê-los traído, forçando-os a saírem para a noite ou a fazerem-se à estrada. O restaurante rápido que funciona vinte e quatro horas por dia, a sala de espera da estação ou o motel são santuários para aqueles que, por nobres razões, não conseguiram descobrir um lar no mundo habitual (…).’


A Arte de Viajar, Alain de Botton


***

De portas abertas mas como que se trancadas estivessem e de janelas de vidro transparente mas como que se de esfumado tratasse, o Fernando vai aos poucos passando assim o dia-a-dia da sua vida, do seu quotidiano citadino. Não interessam as previsões metereológicas, pouco importa a que horas passa o carteiro e muito menos se incomoda ele com o dia do peixe fresco no mercado no lado oposto da rua.
A necessidade de contactar com o exterior físico é pouca ou quase nula e aos poucos, à medida que esta diminui, menor se torna também a sua necessidade para tal o fazer. As compras são feitas na internet e entregues passado 24 horas em sua casa, a rotina de trabalho está nas suas mãos desde que as datas limites sejam respeitadas, a luz a água e o gás são todos pagos por débito directo, as suas contas são todas geridas a partir do rato da secretéria, e finalmente, a TV por cabo e o computador ligados dia-após-dia são as suas portas abertas para o mundo - o mundo virtual.

O ambiente pode parecer o mais comum dos ambiente domésticos, no entanto falta-lhe a luz amarelada que aquece as paredes brancas, o conforto dado pela mobília que já era da avó e os barulhos dos amigos, parentes e até mesmo vizinhos. A casa de Fernando é um local que nada tem de doméstico, conforto ou familiaridade. A casa de Fernando é apenas outro espaço desenhado para o conforto total, onde tudo está à distância de um botão.

Fernando é apenas um personagem tais como outros de que fala Alain de Botton em ‘A Arte de Viajar’, aquando se refere aos personagens dos quadros de Edward Hopper. Fernando vive num constante não-conforto de luzes brancas e de contínua sensação de espera. Fernando vive dentro das suas quatro paredes como que se dum passeio sozinho pela noite se tratasse.

Fernando - posso ser eu… nos dias em que nada alcanço ou oiço, nos dias em que a porta que abro não é a trancada pela chave na noite anterior, mas sim, a de um clique no rato.
Porque a viagem e o desenrolar da vivência nem sempre tem que ser físico.
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