Friday, April 25, 2008

Indeterminacy

De volta dos livros - dos meus, dos outros - alguém com quem partilho a mesa, levanta-se e deixa para trás ‘The Poetics of Indeterminacy’. Gosto da palavra. Fica-me no ouvido. Decido partir com o livro debaixo do braço. Não que me seja de uso algum - mas ‘indeterminacy’ inspira-me, fica-me no ouvido. Gosto da palavra. Gosto do seu significado. Tem mais leveza do que ‘indeterminado’.

De volta dos livros - agora em casa - abro o livro de capa azul, leio sobre Becket e Rimbaud, procuro palavras sobre Cage. Gosto de palavras assim: que se sentem abertas, que deixam no ar um aroma de indefinição, que me levam a abrir o dicionário em busca de novos significados, no caso de estar errada, distraída, perdida.

Escrevo agora sobre espaço urbano, a cidade, design, percepção, narrativas, ficção, impredictibilidade. Divago sobre assuntos cuja poesia parece tantas vezes insignificante. Perguntam-me de que se trata, qual a finalidade, qual a consequência. Querem saber como vou pagar a renda. O que vou fazer da vida. Para aonde vou. Mas as respostas são sempre vazias. Mesmo que existam, nunca chegam ao receptor.

Alguém me dizia hoje que projectos culturais enquanto projectos de dinaminização social são utopias de classe média, de quem pensa que quem vive nos subúrbios tem algum interesse em ir ao museu, ou ter acesso gratuito a um número indefinido de actividades culturais. Alguém me disse - sem dizer - que ‘indeterminacy’ em poesia, em música, em dança - é um um acto bem determinado de desperdício de recursos. Porque talvez eu, que escrevo sobre subjectividade e outras formas de percepção e narrativas fictícias - devia talvez ser arquitecta, ou designer paisagístico… ou engenheira. Devia ser, enquanto recurso humano, um recurso rentável.

Porque ‘indeterminacy’, indefinição, impredictabilidade - são quase um luxo neste lugar. Neste mundo em que tudo acaba, mais tarde ou mais cedo, por se resumir em termos de rentabilidade e productividade.

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Tuesday, April 22, 2008

Existem dias assim…

Existem dias assim… Hoje faz um ano que estava em Ouro Preto: que conheci a Emma, o Ricardo, a Simone, o Tiago; que aprendi os meus primeiros passos de forró; que fui de festa em festa pelas repúblicas da cidade até ao amanhecer; que caminhei nas ruas desertas em noites claras onde ecoavam melodias do Caetano e do Gilberto; e que fui ficando… e me fui apaixonando pelo ritmo calmo daquela cidade.

Existem dias assim… Em que o sol brilha em Londres e a temperatura se faz sentir pela primeira vez primaveril. E que do meu quarto posso ver a cidade que se propaga e propaga nesta superfície quase plana. E em que os objectivos delineados parecem de repente, mais fáceis, mais próximos, menos assustadores.

Existem dias assim… em que os dias distantes são por instantes mais próximos, e em tudo perde um pouco da sua impaciência e se torna mais generoso.

Existem dias assim… em que sorriu. Mesmo sabendo que este é mais outro longo dia.

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Thursday, April 10, 2008

Mágoas

Que sabemos nós sobre as mágoas uns dos outros? Que percebemos nós sobre as lágrimas que correm naqueles que nos rodeiam? Que simpatia temos nós por aquilo que lhes acontece mas nunca nos aconteceu a nós?

***

O meu irmão esteve internado no hospital. Apertou-me o coração. E agora choro. De alívio. De alegria. E também por um monte de outras coisas que se vão acumulando à espera do dia em que a porta se abre.

Vivemos de expectativas. Do que está à nossa espera depois da curva. Depois do amanhã. Depois duma noite bem dormida, ou talvez não. Vivemos das expectativas que os outros têm de nós. Positivas. Negativas. Expectativas que se tornam bagagens pesadas. Survivemos aos naufrágios ou às celabrações do momento da desilusão ou talvez não.

Frágil. A vida. O equilíbrio. O esperar. A própria fragilidade.

***

E agoro choro… por um simples amanhã. Porque nada sei sobre as mágoas daqueles que se cruzam comigo. Porque nada entendo quando os meus próprios dias me absorvem em mim mesma. Porque por vezes, é melhor assim. Chorar antes de uma noite bem dormida.

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