Saturday, November 24, 2007

Para um alguém…

Embora eu saiba que um blog não é mais do que um blog, eu não consigo não discordar com o ponto de vista de Geert Lovink que vê o blog como uma forma de exibionismo, uma forma simples de confissão, uma forma de negação de outras estruturas que antes sustentavam a nossa admiração.
Porque a noção de exibionismo não é assim tão simples. Porque partilhar e confessar são coisas bem diferentes. Porque eu partilho pelo prazer de partilhar. Porque eu partilho por que acredito que a vida de cidade pode ser solitária. Porque eu partilho porque sei que é a única forma de manter viva outras emoções e ligações que de outra forma desapareceriam. Eu partilho porque a vida tem muito mais sentido assim.

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Jack diz que nós tivemos momentos altos e momentos baixos. Jack diz que assim é melhor. Que a ela podia ter deixado um bilhete. Mas que talvez assim ele possa continuar em frente. Que embora seja um cliché… agora que ela foi, ele nem está assim tão triste. Mesmo sabendo que partilharam momentos… momentos em que ele tocava a guitarra e ela cantava. Mas mesmo assim, como pode ele chorar o tempo inteiro? Como pode parecer que ele está a morrer o tempo inteiro?

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Jack, eu gostava de ter todas essas repostas para ti, mas não tenho. Eu mesmo pareço que por instantes morro. Eu mesmo enterro continuamente aqueles momentos que nunca deviam ter existido. Porque a minha essência está na estrada, porque a minha essência está naquilo que ainda não aconteceu. Porque a minha essência está naquilo que eu não quero vêr. Desculpa Jack, eu também estou triste por ti, mas agora, a vida tem que continuar em linha recta, com muros altos de cada alto. E acredita, que do outro lado não vais ter que dizer ‘que eu não preciso de ti’, perguntar ‘porque choras o tempo inteiro’, ‘porque sentes que estás a morrer a todo o instante’. Acredita Jack, que muros altos ajudam a concentração, ajudam a chegar ao destino certo mais depressa.

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Um alguém:

Esta é a segunda e última carta na garrafa de vidro que te envio. Esta é a segunda e última carta de zeros e uns que deixo seguir o seu caminho… porque sei que o seu destino nunca existirá. Aquilo que ambiciono, na verdade, verdade nunca existiu.
Alguém… o destino desta carta é tão abstracto quanto a arquitectra do servidor que uso. E será que ter consciência desta realidade ajuda em algo esta situação? Não.

Assim, alguém, acredita que o cruzamento existe agora. E se tu segues pela direita, eu sigo pela esquerda. Porque a minha loucura é mais louca do que qualquer coisa que eu sinto.

Na semana passada, uma dessas coincidências loucas da vida aconteceu. E de repente, linhas paralelas, cruzaram-se antes de chegar ao infinito. E tu perguntas - Como? - E eu digo - Não sei, mas aconteceu.
E enquanto isso aconteceu, as nossas vidas deixaram de ser paralelas com a esperança de se cruzarem no futuro e passaram a ser perpendiculares. O cruzamento aconteceu, é verdade. Mas foi tão breve que nem dês-te conta.

Alguém, boa sorte. E espero que nunca te arrependas por aquilo que nunca aconteceu. Alguém… eu fui. Tu é que não percebeste.

Esta é a segunda carta a um alguém. Porque existem breves momentos em que a vida é cinzenta. E entre o branco e o preto muita coisa pode acontecer. Mas não desta vez.

E parti. Parti.

Ciao xx

Posted by The Assemblagist at 00:34:40 | Permalink | Comments (2)

Sunday, November 11, 2007

Para um alguém…

Esta nunca passará mais do que uma dedicatória abstracta, pois a probabilidade de tal momento de partilha chegar ao seu destino ambicionado é muito ínfima. É como enviar uma carta com morada insuficiente de forma prepositada ou comprar selos para um simples envelope quando na verdade o que intencionamos fazer é mandar a nossa vida toda atrás.
Assim, hoje faço uma dedicatória para se perder na rede, entre uns e zeros, entre interfaces… para ficar armazenada à espera dum momento mais certo (mas não por isso mais provável) para acontecer.

Esta é a mensagem da garrafa de vidro verde da era moderna. Assim… desejos, ambições, gritos de desespero ficam indo e vindo consoante a maré à espera que a menina de cabelos longos e pés descalços a apanhe… e descubra a quem se destina. E no final, bem no final, o tal destinatário secreto abre a rolha - e todo o mundo se altera a seus pés.

Eu gosto de histórias impossíveis, especialmente no papel. Na vida real, tento evitá-las. Não sei como reagir. Não sei como continuar a sonhar. Não sei como viver em mundos de cristal.

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Hoje daria um bom filme. Não só falo da história e acção em si, mas mesmo a fotografia seria de qualidade excepcional. Mas é pena, nem carrego papel nem carrego câmera. Porque certas belezas não se querem partilhadas. Porque certas belezas querem-se presas em espaços abstractos à espera duma realização física em planos futuros.

Pensar na vida como se dum filme se tratasse torna por vezes bem mais fácil existir. Podemos imaginarmo-nos num plano exterior, como que se tudo o que experenciamos agora não passasse de meras imagens que observamos enquanto espectadores. A dor que me acompanha o físico parece assim bem mais fácil de existir.

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Um Alguém:

Os momentos mais tristes são aqueles em que regresso a casa sozinha. Na verdade, eu sempre volto para casa sozinha, mas há dias em que volto especialmente sozinha. São aqueles dias em que saio do trabalho tarde e cansada em noites de fim-de-semana - em que eu sei, que devia estar noutro lugar que não aquele aonde estou.

São momentos em que tudo me fazem viver agarrada a recordações. Recordações essas que por vezes não existem em mais momento algum.

Momentos de melancolia lusitana - em que me apetece chamá-la de demagogia barata. De TV para as audiências. De jornal gratuito de transporte público.

Os momentos mais tristes são aquelas manhãs em que desejo que a noite passada tivesse sido em tudo diferente. Pior ainda é quando eu sei que lá no fundo a noite a anterior foi uma boa noite, só que não como eu queria.

São manhãs em que revisito os espaços da noite anterior. Em que me verifico se o que escrevo agora faz algum sentido existencial. São manhãs em que vagueio pelos minutos das horas passantes. 

Posted by The Assemblagist at 01:22:16 | Permalink | Comments (2)