Sunday, November 11, 2007

…-mania! (6)

Eu gosto do português
Da cozinha da minha terra
Do têmpero que a avó me ensinou.

Eu gosto das migas e do ensopado
Da alheira e da posta
Do bacalhau com natas
À Brás e no forno.
Eu gosto do coentro e do louro
Bastante cebola
E um pouco de vinho.
Tenho saudades da massa de pimentão
Que se fazia no quintal
Nos meses de Verão
Na casa da Inácia e do Joaquim.

Eu gosto de sentir que não é só o sangue
Que me corre nas veias
Que me deixa indecisa
Quando chega o momento
Da decisão.

Eu sou nortenha eu sou alentejana
Sou alfacinha no coração
E portuguesa definitivamente
Quando olho o horizonte.

Sou um marinheiro moderno
Que sofre longe de casa
E que se angustia quando
De casa não pode partir.
Sou um marinheiro
Que em porto algum
Se sente tão em casa
Como no porto lusitano.
Sou um marinheiro
Que deixa um pouco de si
Por cada porto que passa
Na esperança que um dia
Consiga retornar
Ao ponto de partida.

Eu gosto de doce de abóbora
Delícias feitas de amêndoa
Arroz doce com canela
E pastéis de nata.

Eu gosto de vinho verde da Régua
Tinto do Douro e do Alentejo
E verde de Setúbal.
Eu gosto do moscatel
Da ginginha em noites de Inverno
Em tascas sombrias
E da amarguinha
Que me leva ao tempo que passou.

Eu gosto do sotaque do Porto
Dos Açores e do Algarve
Não gosto tanto do nortenho
Ou do alentejano
No entanto esses são os que carrego
Na voz e na alma
Esses são aqueles
Que fazem de mim o que sou.

Eu gosto do português
Em manhãs de Outono
Quando aqui tudo arrefece
E eu quase desespero…
Porque estou tão longe
E tão perto…

Posted by The Assemblagist at 14:19:41 | Permalink | Comments (2)

Tuesday, November 6, 2007

…-mania! (5)

Os grandes momentos da existência são aqueles em que o acumular duma não mais possível situação chega ao seu ponto limite e uma decisão é tomada. Um esquina é contornada. O cabo das tormentas torna-se então o cabo da boa esperança.

Eu gosto de grandes decisões,
Daquelas que passo dias a evitar
Daquelas que me fazem passar noites em branco
Daquelas que se eu pudesse evitar, evitaria.

Grandes decisões
Tornam pequenos instantes
Em momentos longos
Que se prolongam na vida
Na minha e não só.
Grandes decisões
São momentos de bonança
Depois de momentos de tempestade.
Grandes decisões
Trazem esperança
Dão alento a sociedades inteiras
Que na esperança dum mundo melhor
Vivem na ilusão duma felicidade maior.

Grandes decisões
São no fundo ilusões
Das quais podemos ficar dependentes
Que nos passam a alimentar
Como que se duma droga se tratassem.
Grandes decisões
São momentos na minha vida
Em que eu sei que o novo caminho
É um cruzamento
Que aos poucos… bem lentamente,
Desaparecerá.

Posted by The Assemblagist at 02:14:59 | Permalink | No Comments »

Tuesday, October 30, 2007

…-mania! (3)

Ritmo. Melodia. Pausa.

Eu gosto de contar tempo, de contar os espaços entre sons, de contar o número de alterações de ritmo. A melodia do ritmo por vezes toma conta dos meus dias. Umas vezes de forma positiva outras vezes de forma menos charmosa. A melodia não tem que ser bela. A melodia não tem que seguir os modelos de estética que emprego no meu trabalho.

Eu gosto daquilo que me surprende. Eu gosto da melodia inesperada, que toma caminhos não previstos não delineados nos acordes anteriores. Eu gosto da melodia de vozes doces. Por vezes masculinas. Por vezes quase que frias. Roucas. Vazias de encanto. Eu gosto da melodia de cantos novos que desejo conhecer. Eu gosto principalmente das melodias que me levam a outros lugares não esperados, que me levam a abrir livros na esperança de melhor poder possuír os seus encantos. Eu gosto da melodia que se deixa copiar, imitar e recriar. Eu gosto da melodia que se torna minha.

A pausa é o momento de diálogo entre o que foi apresentado, o que está prestes a acontecer e o terceiro, o exterior, eu mesmo. A pausa prolongada leva-me a outros espaços. A pausa trás tudo aquilo que foi percorrido de volta perante os meus olhos… a minha audição… os meus sentidos. A pausa é o momento de paz. O momento em que tudo de repente ganha mais sentido. O momento que tudo ganha um significado. Uma razão. Uma existência.

Pausa. Pausa. Ritmo. Pausa. Melodia.

Um momento de inspiração.

Posted by The Assemblagist at 01:35:57 | Permalink | No Comments »

Monday, October 29, 2007

…-mania! (2)

Palavras e letras sempre foram um vício que começou muito antes de poder ser partilhado.

Palavras e letras têm ficado acumuladas em folhas soltas em espaços desconectados por vezes com dedicatórias, e muitas mais vezes sem elas.

Mas as palavras e letras que me renovam e inspiram são aquelas que ficam em lugares que se querem partilhar.

Eu gosto de palavras e letras em paredes brancas,
em mesas de escola,
em bocados de papel no meio de livros,
na parede do quarto,
em cartões de aniversário,
em páginas pessoais,
na secção de comentários,
na pele tatuada,
em emails de grupo…

Palavras e letras são para ser partilhadas, reutilizadas, copiadas e reaproveitadas. Porque o que somos nós sem estes pequenos prazeres diários de ‘cut and paste’ de emoções, pensamentos, conhecimentos e outros afins?

Posted by The Assemblagist at 01:51:01 | Permalink | Comments (1) »

Saturday, October 27, 2007

…-mania!

Eu gosto daquelas coisas
Que não se dedicam a mais ninguém
Que se querem só para nós…
E talvez eu tenha sorte
Porque o material é-me insignificante.

Na verdade aquilo que eu gosto mesmo
Não posso transportar
Mas posso partilhar.
Eu gosto do pé de dança
Que é dois para lá e dois para cá
E como muitas vezes me dizem
Dois pra lá e dois pra cá
Qualquer um faz!

O resto vem da alma…

Posted by The Assemblagist at 01:41:29 | Permalink | Comments (2)