Saturday, November 17, 2007

Lugares… a que não se pertence

A noção de casa, de pertencer a um lugar só, de origens desapareceu quando eu tinha 12 anos. E com essa sensação deixei para trás montanhas, corridas de bicicleta em caminhos de terra e jogos de esconde-esconde em finais de tarde no lagar de azeite e outro edifícios da quinta.
A noção de casa é agora espalhada, é uma noção de vários níveis de afeição e não só. Hoje eu só um ‘copy e paste’ de lugares que me acolheram de melhor ou pior forma, que me absorveram na sua teia quotidiana ou me rejeitaram instantaneamente. Casa é Lisboa quando a saudade aperta, é Bristol em fim-de-semanas
de fuga, é Londres na maioria dos outros dias. Mas esta é a minha casa física. Porque casa, enquanto noção de lugar aonde pertenço não existe. Porque hoje existo aqui… mas talvez amanhã não. Casa é e será o lugar aonde eu estiver com a minha mochila, um livro e o portátil.

Hoje, o lugar a que não pertenço, mas aonde existo é Bristol. Assim, volto à casa que foi casa na maioria dos dias durante 5 anos. E assim, sinto um pequeno bater do coração mais acelarado sempre que cá volto. Mas a vida continua e os lugares sofrem mutações. As pessoas vão e vêm. Mas lá no fundo, enquanto existir pelo menos um elo de ligação, esta será sempre uma casa temporária de vez em quando.

A Maisy e a Maya nasceram. A Sarah foi para Newcastle. A Julie deu a volta à Europa e ficou em Marseille. A Joana vai para Oxford. A Lucy continua por cá, mas sempre com um pé fora.

E eu… eu volto e reencontro lugares e momentos que ficaram cristalizados no tempo à espera do meu retorno. Eu, passo a noite a dançar esbarrando com caras mais ou menos conhecidas, rio-me e estabeleço novos elos. Eu, observo o céu azul da cidade que parece mais pequeno do que o londrino, mas talvez mais brilhante e em tudo tão diferente do lisboeta. Eu, caminho pelas ruas vazias às 5 da manhã pensando como aqui a vida é fácil… só por poder regressar a casa assim - caminhando. Eu, fico por momentos com vontade de aqui voltar, só porque se sente mais fácil.

Mas este lugar… não me pertence. E foi por isso mesmo que eu parti. Parti.

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Friday, November 16, 2007

Para a Cientista…

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Thursday, November 15, 2007

Escrevo. (2)

Escrevo.
Escrevo porque de outra forma não sei partilhar. Escrevo porque as palavras escritas são-me mais fáceis. Escrevo para fugir ao olhar directo. Momentos de solidão limpam-me a mente. São terapia da vida moderna. São o descarregar de tanta informação.

Escrevo aquilo que não posso dizer. As paredes crescem. A recepção falha. A palavra oral atrapalha-me o raciocínio. Escrevo o que não digo. O que não sei se sinto. O que não quero deixar de materializar.

Escrevo porque não gosto de papel branco. Escrevo gosto de preencher os espaços vazios do quotidiano.

Escrevo porque sei que outros o fazem. Porque sei que o dom da oralidade não pertence a tantos como eu. Porque sei que um dia é bom ter algo para olhar para trás. Escrevo porque não quero deixar ir tudo o que não posso agarrar.

Escrevo. Escrevo porque gosto. Simplesmente.   

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Pequenos Detalhes

A existência é marcada pelos pequenos detalhes. Bem aventurados aqueles pensam no ínfimo, bem aventurados aqueles que sabem que dias de sol sem céu azul não fazem sentido, bem aventurados aqueles que preenchem as nossas vidas de pequenos sorrisos diários com pequenos gestos que de outra forma passariam despercebidos.

E hoje… uma pequena imensidão de pequenos gestos tornaram o meu dia bem mais saboroso, bem mais leve, bem mais alegre do que qualquer outro dia das últimas semanas. Talvez porque também a tristeza que carregamos connosco também tenha em si mesmo uma data limite, um tempo limite de existência.

***

Acordei tarde. E pouco fiz durante horas. Comecei a ler um novo livro e por ele me apaixonei. Decidi esquecer os compromissos que me agarravam à realidade e li, li durante horas!

Trabalhei. Trabalhei devagar. Imaginei o próximo momento livre para voltar de novo ao meu livro. São quatro. É bom saber que depois deste tenho mais três.

***

E em menos de 72 horas vou voltar a um lugar pelo qual tenho um grande carinho. O lugar que me ensinou que nada é demasiado insignificante… que tudo merece ser batalhado por, se assim o sentirmos. E assim, regresso a Bristol mais uma vez.
Recebo emails, recebo mensagens – Sempre é verdade que vens? Óptimo! – E assim sonho com o passar das horas, que mais depressa se evaporarão na companhia de Takeo.

Falei com o Henrique. Deu aperto no coração. Deu saudades de lugares aos quais não vou voltar, por agora. Mas em dois minutos, como sempre, disse as palavras certas no momento certo. E de repente, trouxe de volta até mim um alegria imensa, aquela mesma que partilhei com ele tantas vezes.

***

A vida… a vida nem sempre é assim tão injusta.

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Outra noite.

Outra noite.
A semana começa a caminhar acelaradamente até Sábado. A vida aumenta lá fora.
Estou exuasta. Mas este é um cansaço físico bom. Não me incomoda. A cama chama por mim.
A insógnia não espreita. É uma noite positiva. Mesmo sabendo que a vida vai aumentando de volume lá fora.

Nem sempre as noites são momentos de ansiedade. E é bom saber disso.

Posted by The Assemblagist at 01:27:13 | Permalink | No Comments »

Monday, November 12, 2007

Escrevo.

Escrevo mais do que nunca. Escrevo como não escrevia há dez anos. Escrevo todos os dias. Escrevo mais do que uma vez por dia. Escrevo numa fuga desesperada duma dor física que me aperta muito mais do que a alma.

Nina Simone acompanha-me. Carrega-me ao colo por noites fora de insónia prolongada.
O ritmo dela balança a imaginação, deixa-me flutuar e sonhar. Deixa-me passear pelo Palácio da Pena em noites de luar. Deixa-me caminhar à beira mar em noites calmas de Primavera. Deixa-me adormecer ao relento em noites quentes de Verão.
Nina conta-me as tuas histórias. Reescreve as minhas. Inventa novas nestes momentos de vazio.

As noites de Domingo são as únicas de silêncio por aqui. Depois o ritmo da vida vai aumentando dia após dia até ao seu auge de Sábado à noite. Aí a noite é preenchida por risos e gritos, por buzinas e sirenes… por palavras não ditas.
As noites de Domingo são por isso noites de vazio… de solidão positiva… de momentos de reflexão.
As noites de Domingo são a preparação de possíveis Segundas de manhã ensolaradas…

… Mas só depois de dormir.

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Sunday, November 11, 2007

…-mania! (6)

Eu gosto do português
Da cozinha da minha terra
Do têmpero que a avó me ensinou.

Eu gosto das migas e do ensopado
Da alheira e da posta
Do bacalhau com natas
À Brás e no forno.
Eu gosto do coentro e do louro
Bastante cebola
E um pouco de vinho.
Tenho saudades da massa de pimentão
Que se fazia no quintal
Nos meses de Verão
Na casa da Inácia e do Joaquim.

Eu gosto de sentir que não é só o sangue
Que me corre nas veias
Que me deixa indecisa
Quando chega o momento
Da decisão.

Eu sou nortenha eu sou alentejana
Sou alfacinha no coração
E portuguesa definitivamente
Quando olho o horizonte.

Sou um marinheiro moderno
Que sofre longe de casa
E que se angustia quando
De casa não pode partir.
Sou um marinheiro
Que em porto algum
Se sente tão em casa
Como no porto lusitano.
Sou um marinheiro
Que deixa um pouco de si
Por cada porto que passa
Na esperança que um dia
Consiga retornar
Ao ponto de partida.

Eu gosto de doce de abóbora
Delícias feitas de amêndoa
Arroz doce com canela
E pastéis de nata.

Eu gosto de vinho verde da Régua
Tinto do Douro e do Alentejo
E verde de Setúbal.
Eu gosto do moscatel
Da ginginha em noites de Inverno
Em tascas sombrias
E da amarguinha
Que me leva ao tempo que passou.

Eu gosto do sotaque do Porto
Dos Açores e do Algarve
Não gosto tanto do nortenho
Ou do alentejano
No entanto esses são os que carrego
Na voz e na alma
Esses são aqueles
Que fazem de mim o que sou.

Eu gosto do português
Em manhãs de Outono
Quando aqui tudo arrefece
E eu quase desespero…
Porque estou tão longe
E tão perto…

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Para um alguém…

Esta nunca passará mais do que uma dedicatória abstracta, pois a probabilidade de tal momento de partilha chegar ao seu destino ambicionado é muito ínfima. É como enviar uma carta com morada insuficiente de forma prepositada ou comprar selos para um simples envelope quando na verdade o que intencionamos fazer é mandar a nossa vida toda atrás.
Assim, hoje faço uma dedicatória para se perder na rede, entre uns e zeros, entre interfaces… para ficar armazenada à espera dum momento mais certo (mas não por isso mais provável) para acontecer.

Esta é a mensagem da garrafa de vidro verde da era moderna. Assim… desejos, ambições, gritos de desespero ficam indo e vindo consoante a maré à espera que a menina de cabelos longos e pés descalços a apanhe… e descubra a quem se destina. E no final, bem no final, o tal destinatário secreto abre a rolha - e todo o mundo se altera a seus pés.

Eu gosto de histórias impossíveis, especialmente no papel. Na vida real, tento evitá-las. Não sei como reagir. Não sei como continuar a sonhar. Não sei como viver em mundos de cristal.

***

Hoje daria um bom filme. Não só falo da história e acção em si, mas mesmo a fotografia seria de qualidade excepcional. Mas é pena, nem carrego papel nem carrego câmera. Porque certas belezas não se querem partilhadas. Porque certas belezas querem-se presas em espaços abstractos à espera duma realização física em planos futuros.

Pensar na vida como se dum filme se tratasse torna por vezes bem mais fácil existir. Podemos imaginarmo-nos num plano exterior, como que se tudo o que experenciamos agora não passasse de meras imagens que observamos enquanto espectadores. A dor que me acompanha o físico parece assim bem mais fácil de existir.

***

Um Alguém:

Os momentos mais tristes são aqueles em que regresso a casa sozinha. Na verdade, eu sempre volto para casa sozinha, mas há dias em que volto especialmente sozinha. São aqueles dias em que saio do trabalho tarde e cansada em noites de fim-de-semana - em que eu sei, que devia estar noutro lugar que não aquele aonde estou.

São momentos em que tudo me fazem viver agarrada a recordações. Recordações essas que por vezes não existem em mais momento algum.

Momentos de melancolia lusitana - em que me apetece chamá-la de demagogia barata. De TV para as audiências. De jornal gratuito de transporte público.

Os momentos mais tristes são aquelas manhãs em que desejo que a noite passada tivesse sido em tudo diferente. Pior ainda é quando eu sei que lá no fundo a noite a anterior foi uma boa noite, só que não como eu queria.

São manhãs em que revisito os espaços da noite anterior. Em que me verifico se o que escrevo agora faz algum sentido existencial. São manhãs em que vagueio pelos minutos das horas passantes. 

Posted by The Assemblagist at 01:22:16 | Permalink | Comments (2)

Friday, November 9, 2007

Os F*uk Momentos!

Os Buraka Som Sistema vêm tocar à porta da casa no Sábado. Nada de especial… se não tivermos em conta que vivo no sul de Londres, não muito longe do centro, mas numa área sem qualquer beleza estética. E que nunca seria a escolha de qualquer londrino para passar a sua noite de Sábado. No entanto, eles vêm cá tocar e eu não vou perdê-los!

Há duas semanas comi um pastel de nata na Regent Street. Fácil de encontrar em Londres, é verdade. Mas ao mesmo tempo nem assim tão fácil, a não ser que vivas perto de Stockwell ou Westbourne Park. A pastelaria no Regent Street era fina, tal como o preço também foi fino. Mas a qualidade não ficou muito longe dos pastéis que encontras em Belém. Tornou o meu dia mais animado e menos leve, porque quando se come um, tem que haver sempre um segundo. No entanto, sem canela. Acertaram na receita, erraram no detalhe. Comum por aqui. É como se o céu azul não importasse num de dia de sol.

Nas próximas semanas vou estudar José Gil. O único português que consta numa lista imensa de filósofos e sociologistas do século XX. Orgulho nacional é por vezes ridículo. Mas neste caso não posso deixar de dizer que me alegra. Pelo menos temos a língua em comum.

***

Depois de muitos anos por terras de sua majestade, há uma coisa que não pode passar despecebida. De Outubro a Fevereiro a vida tem uma dimensão diferente. A bicicleta fica em casa. O pub tem mais gente… mais cedo. As celebrações começam dois meses antes. As grandes decisões são tomadas.

A falta de luz solar tem consequências inmagináveis na vida quotidiana. Ano após ano, eu passo cinco meses preste a fazer a malas e partir. E no entanto, sempre fico. Fico para outro Julho quando escurece às 11 da noite e amanhece antes das 5. Fico para outro Verão de tardes passadas no parque a vêr o pôr do sol com uma lata de cidra. De Somerset, de preferência.

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Thursday, November 8, 2007

A Kate faz anos! It’s Kate’s birthday!

Os lugares não são mais do que o conjunto das pessoas que nele habitam. As experiências vividas são um reflexo das pessoas com as quais foram partilhadas. Mais do que os lugares e as fotos bonitas, o que fica das viagens são as pessoas com quem nos cruzamos e estabelecemos contacto.

Quando eu cheguei a Londres conheci a Kate. Ela é Americana. Ela gosta de coisas que eu normalmente associo à América. Ela tem posições políticas diferentes das minhas. Ela tem um sentido de humor demasiado afiado para o gosto de muita gente. Ela faz-me rir mais do que ninguém nesta cidade imensa. Ela trás-me pequeno-almoço a casa naquelas manhãs em que ela sabe que não consegui dormir ou que não estou com muita vontade de enfrentar o mundo exterior. Ela sabe como foi o meu dia só pelo tom da minha voz quando atendo o telefone.

Enfim… A Kate tornou-se como uma irmã nesta cidade imensa.

Quando vou trabalhar as pessoas correm , olham para o chão, parecem cansadas. Eu também faço por vezes parte desse grupo. Aliás, muitos são os dias em entro no metro já de livro aberto e que saio dele antes de marcar a página aonde fiquei. Mas quando regresso a casa é diferente. Aí sinto-me cansada, apetece-me dormir - então fico observando os vizinhos. Entretenho-me com os risos altos daqueles que regressam a casa depois duma boa noite passada nos copos. Por vezes alguém comenta alto como a loira sentada ao meu lado é linda. É verdade, ela é mesmo muito bonita. E então sorrio. Porque aqui, partilha-se muito pouco.

Se eu não tivesse conhecido a Kate também muita da minha partilha se tornaria partilha à distância. Mas como conheci a Kate, amanhã quero ser eu a bater à porta do prédio em frente com o café e os bolos na mão.

Quero poder sorrir e dizer: Parabéns Kate!

***

Places are the people that inhabit them. Our lived experiences reflect the people we shared them with. What makes travelling special are not the sightseeings or the pretty photos, but the people that we meet and create bounds with.

When I arrived in London I met Kate. She is American. She likes things that I mostly linked with America. She has different political views from mine. She has a sharp sense of humour. Too sharp for a lot of people. She makes me laugh like no one else does. She brings me cappucino in those mornings she knows I did not get enought sleep or that I do not feel like facing the outside world. She knows how my day was just by the tone of my voice when I answer the phone.

Kate became like a sister in this ‘long’ city.

When I go to work people run, they keep their eyes down, they look tired. Sometimes I am also part of this group of people. Often I already have my book open by the time I catch the tube and also leave it before I had the chance to mark the page where I left it. But when I am coming back home is different. By then I feel tired. I feel like sleeping. So usually I will just watch what is around me. I will listen to the loud laugh of those ones returning home after a drinking night out. Sometimes someone will make a loud comment on how beautiful the blonde sitting right next to me is. It is true, she is very pretty. And then I smile. Because over here, people do not share enough.

If I had not met Kate most of my sharing would have to be a ‘long distance’ sharing. But as I met Kate, tomorrow I want to be the one knocking on the door of the opposite building with the coffee and the cakes in my hands.

I want to smile and say: Happy Birthday Kate!

Posted by The Assemblagist at 01:44:03 | Permalink | Comments (1) »