Homens de H Maiúsculo - Parte II
- uma história de políticos brasileiros e as suas crónicas de vida compartilhadas com uma mochileira solitária
O meu segundo encontro com um H Maiúsculo deu-se desta vez num final de tarde, já quando a noite se preparava para tomar conta do território em meu redor. E desta vez, H Maiúsculo tem identidade. Eu me restringirei ao seu apelido, para sua e minha protecção quando tendo em conta o mundo de ‘cowboys’ em que aqui me encontro.
Mesmo em metrópoles de dimensões de gigantes rodeada de grandes torres e modernidades de ponta, nós peões desta sociedade, não passamos de gado sob controle de vaqueiros de Mercedes e BMWs. Eles nos guiam e nos conduzem para novos territórios, desviam-nos a atenção de forma a evitar desilusões de maior, e matam-nos quando bem assim entendem ou lhes é mais conviniente.
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H Maiúsculo é Rosso - um homem grande, em todos os sentidos plausíveis da palavra, de sangue italiano-polaco, educação europeia com maior predominação portuguesa, e de gosto apurado, não só devido à sua educação, mas porque o seu estatuto social, ou devo eu dizer, económico, assim o permite.
Rosso é um político e orgulha-se disso. Ele preenche todos os estereótipos de políticos brasileiros que eu tenho encontrado: tem dois ‘paus-mandados’ como nós dizemos em território lusitano, um ’sítio’ fora da grande cidade, uma mulher e dois filhos, uma série de pessoas que dependem da sua boa vontade, muitas retribuições monetárias para oferecer em troca de fidelidade política e um desejo enorme em falar constantemente.
Eu me espanto com tamanho desespero em partilhar o seu dom de comunicação - quantas mais palavras eram libertadas por minuto assim aumentava o meu desprezo e consequentemente maior era a sua tentativa para captar a minha atenção.
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Mas voltando ao assunto inicial, ao nosso primeiro encontro. Nos passados dois meses eu tenho recebido contribuições materiais e outras menos materiais, de todos os tipos, por estar sozinha, não ser brasileira e ter um sorriso fácil.
O encontro iniciou-se e após um mero estabelecimento de conhecimento que durou breves segundos, o meu entendimento de vinhos portugueses estava já a ser testado. Enganou-se, tais provas não me intimidam, divertem-me! Quereria ele testar a veracidade de minhas origens portuguesas, a qualidade do meu estatuto ou simplesmete, esclarecer, em caso de alguma dúvida, que ele, Dom Rosso, era fã de vinho de 80 euros a garrafa? Também eu o sou… e acredito que mais meio mundo.
Rosso e eu temos algo em comum, mas somente no papel. Eu estudo espaço urbano e ele manda no espaço urbano. Uma relação acima da de meros conhecidos é assim estabelecida.
Quando o encontro inicial é terminado, Rosso parte com os seus dois companheiros menos altos, menos bem-parecidos, menos comunicativos e menos charmosos - enfim, um pouco menos tudo aquilo que seu mandatário é.
Eu também parto, à deriva da minha imaginação, quando uns breves instantes mais tarde sou de novo interrompida, ou mais correctamente, abordada por um ‘dos menos uma série de coisas que Rosso’ que me convidou para um café.
Aceitei, porque não?
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Depois dum pequeno inicial instante discutindo coisas menores, havíamos chegado, finalmente, ao ponto pelo qual eu tanto ansiava. Quem era afinal Rosso? E porquê a existência dos seus dois seres menores aos quais cabia todas as tarefas de cariz social menor como pedir os cafés, atender chamadas telefónicas em momentos inoputurnos, confirmar com movimentos básicos de cabeça tudo aquilo que Rosso processava e por fim, pagar a conta.
Sim, à minha frente eu tinha, nada mais nada menos, o futuro Presidente do Brasil. E viva o Brasil! E à minha sorte de novata!
A estratégia para tal sucesso está já toda definida e quando eu perguntei ignorantemente:
- Mas como você pode ter tanta certeza de tal sucesso?
Fui recebida com a seguinte resposta:
- É como estudar. Primeiro o Ensino Médio, depois a Faculdade, o Mestrado e finalmente, o Doutorado. Na política é assim mesmo, um passo de cada vez. - E continuou. - Se ganhar para o Senado em 2010, vou viajar com a minha equipe técnica e respectivas esposas pela Europa: Andaluzia, Catalunha, Veneza e Tuscania. Você está convidada!
Rosso também lembrou que para tal acontecer era preciso ganhar e que um dos seus ‘menos bem-parecidos’, arranjasse esposa.
Ah, a Presidencia do Brasil só lá para 2018.
Pedi um cartão e olhando directamente nos seus olhos, afirmei que ficaria atenta a tais movimentos e vitórias. Estaria de volta para cobrar tal viagem.
Antes de eu me levantar e partir, perguntei-lhe que partido representava. Afirmou:
- Eu sou democrático! Democrata!
Sem mais a dizer parti. Parti.