Friday, June 8, 2007

Homens de H Maiúsculo - Parte II

 - uma história de políticos brasileiros e as suas crónicas de vida compartilhadas com uma mochileira solitária

O meu segundo encontro com um H Maiúsculo deu-se desta vez num final de tarde, já quando a noite se preparava para tomar conta do território em meu redor. E desta vez, H Maiúsculo tem identidade. Eu me restringirei ao seu apelido, para sua e minha protecção quando tendo em conta o mundo de ‘cowboys’ em que aqui me encontro.

Mesmo em metrópoles de dimensões de gigantes rodeada de grandes torres e modernidades de ponta, nós peões desta sociedade, não passamos de gado sob controle de vaqueiros de Mercedes e BMWs. Eles nos guiam e nos conduzem para novos territórios, desviam-nos a atenção de forma a evitar desilusões de maior, e matam-nos quando bem assim entendem ou lhes é mais conviniente.

H Maiúsculo é Rosso - um homem grande, em todos os sentidos plausíveis da palavra, de sangue italiano-polaco, educação europeia com maior predominação portuguesa, e de gosto apurado, não só devido à sua educação, mas porque o seu estatuto social, ou devo eu dizer, económico, assim o permite.

Rosso é um político e orgulha-se disso. Ele preenche todos os estereótipos de políticos brasileiros que eu tenho encontrado: tem dois ‘paus-mandados’ como nós dizemos em território lusitano, um ’sítio’ fora da grande cidade, uma mulher e dois filhos, uma série de pessoas que dependem da sua boa vontade, muitas retribuições monetárias para oferecer em troca de fidelidade política e um desejo enorme em falar constantemente.

Eu me espanto com tamanho desespero em partilhar o seu dom de comunicação - quantas mais palavras eram libertadas por minuto assim aumentava o meu desprezo e consequentemente maior era a sua tentativa para captar a minha atenção.

 Mas voltando ao assunto inicial, ao nosso primeiro encontro. Nos passados dois meses eu tenho recebido contribuições materiais e outras menos materiais, de todos os tipos, por estar sozinha, não ser brasileira e ter um sorriso fácil.

O encontro iniciou-se e após um mero estabelecimento de conhecimento que durou breves segundos, o meu entendimento de vinhos portugueses estava já a ser testado. Enganou-se, tais provas não me intimidam, divertem-me! Quereria ele testar a veracidade de minhas origens portuguesas, a qualidade do meu estatuto ou simplesmete, esclarecer, em caso de alguma dúvida, que ele, Dom Rosso, era fã de vinho de 80 euros a garrafa? Também eu o sou… e acredito que mais meio mundo.

Rosso e eu temos algo em comum, mas somente no papel. Eu estudo espaço urbano e ele manda no espaço urbano. Uma relação acima da de meros conhecidos é assim estabelecida.

Quando o encontro inicial é terminado, Rosso parte com os seus dois companheiros menos altos, menos bem-parecidos, menos comunicativos e menos charmosos - enfim, um pouco menos tudo aquilo que seu mandatário é.

Eu também parto, à deriva da minha imaginação, quando uns breves instantes mais tarde sou de novo interrompida, ou mais correctamente, abordada por um ‘dos menos uma série de coisas que Rosso’ que me convidou para um café.

Aceitei, porque não?

Depois dum pequeno inicial instante discutindo coisas menores, havíamos chegado, finalmente, ao ponto pelo qual eu tanto ansiava. Quem era afinal Rosso? E porquê a existência dos seus dois seres menores aos quais cabia todas as tarefas de cariz social menor como pedir os cafés, atender chamadas telefónicas em momentos inoputurnos, confirmar com movimentos básicos  de cabeça tudo aquilo que Rosso processava e por fim, pagar a conta.

Sim, à minha frente eu tinha, nada mais nada menos, o futuro Presidente do Brasil. E viva o Brasil! E à minha sorte de novata!

A estratégia para tal sucesso está já toda definida e quando eu perguntei ignorantemente:

- Mas como você pode ter tanta certeza de tal sucesso?

Fui recebida com a seguinte resposta: 

- É como estudar. Primeiro o Ensino Médio, depois a Faculdade, o Mestrado e finalmente, o Doutorado. Na política é assim mesmo, um passo de cada vez. - E continuou. - Se ganhar para o Senado em 2010, vou viajar com a minha equipe técnica e respectivas esposas pela Europa: Andaluzia, Catalunha, Veneza e Tuscania. Você está convidada!

Rosso também lembrou que para tal acontecer era preciso ganhar e que um dos seus ‘menos bem-parecidos’, arranjasse esposa.

Ah, a Presidencia do Brasil só lá para 2018.

Pedi um cartão e olhando directamente nos seus olhos, afirmei que ficaria atenta a tais movimentos e vitórias. Estaria de volta para cobrar tal viagem.

Antes de eu me levantar e partir, perguntei-lhe que partido representava. Afirmou:

- Eu sou democrático! Democrata!

Sem mais a dizer parti. Parti. 

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Monday, June 4, 2007

Homens de H Maiúsculo - Parte I

- uma história de políticos Brasileiros e as suas crónicas de vida compartilhadas com uma mochileira solitária

 

Quando o dia deixa de ser dia e a noite se torna prevalente e cobre todo o território terrestre que avistamos, aquilo que julgávamos menos provável altera a sua força na balança e torna-se a razão.

Uma noite viajava eu sozinha, como já era habitual naqueles dias, quando fui abordada por um ser de H Maiúsculo que cuja demonstrações de educação me reteve de maiores recusas e más criações. A sua curiosidade era tão natural e habitual como muitas outras que já havia previamente encontrado por meus percursos. Assim, aceitei responder de forma curta e tão breve o quanto possível, a um interrogatório extenso e por vezes um tanto delicado.

Este H Maiúsculo do qual não recordo a sua identidade viajava com sua querida  e já idosa avó. E descrevo tal ser como ‘querida’ por assim se qualificarem este grupo de seres em países católicos. - Elas não batem nem ralham, elas se riem de nossas menos aventuradas brincadeiras e por vezes, até se descuidam no relógio quando se trata de horários nocturnos.

H Maiúsculo tentou prolongar a sua conversação comigo por tanto tempo o quão possível e eu já incomodada, tentava encontrar artifactos linguísticos de diversão que o levassem a aborrecer-se ou porque não, entendiar-se com tal situação.

A noite era já cerrada e apresentava-se longa, pois a companhia não se fazia agradável… e a viagem, essa, embora de não longa distância prolongar-se-ia por horas intermináveis devido às constantes paragens em aglomerados de menor ou maior dimensões.

Bom, o momento de tédio nunca aconteceu e quando já bem tardio se fazia e eu tentava dormitar sempre com o ouvido em alerta, o H Maiúsculo encheu-se de coragem e valentia, e encontrando sua avó em sono pesado, decidiu aventurar-se para territórios mais próximos dos meus - e com isto, quero eu dizer, que se sentou no assento ao lado do meu.

O sentimento foi desde o primeiro instante de exasperação, mas a situação exigia maturidade - assim, eu deixei-me guiar pelas suas histórias de vida e outras coisas mais.

H Maiúsculo era dono de uma empresa de aluguer de automóveis, guiava e transportava gente de alguma importância social e económica da região e conhecia bastante bem as ‘entranhas e entremeadas’ da hierarquia social do seu pequeno mundo. No dia seguinte iria ter cons uns contactos seus na Polícia Federal em Salvador - realmente, nesse mesmo instante, fiquei impressionada! As suas posses e possibilidades alteraram por momentos a minha percepção de H Maiúsculo. Como poderia eu, ser do sexo feminino, não ficar embavecida com o seu pai que já era prefeito de renome e com as certezas de H Maiúsculo dum futuro próspero?

- Eu sei que algo de muito bom me espera… eu sei que um dia serei famoso e importante… vou ser um grande político. Já serei candidato nas próximas eleições. - assim partilhava em tom baixo H Maiúsculo.

As suas partilhas se extenderam tanto  a nível temporal como íntimo. Assim, sem qualquer motivação da minha parte, partilhou comigo as desilusões dum casamento falhado, das desventuras de morar com a sua mãe e a certeza de que eu, tinha uma energia muito especial.

- A sua simpatia e aura são muito positivas e especiais - repetia ele, no caso de tais declarações tivessem sido ignoradas inicialmente. E eu contava mentalmente o número de vezes que tal sentimento me havia sido previamente, nesta mesma viagem, partilhado comigo.

Os seus anseios pessoais, tais como provavelmente os seus anseios políticos eram partilhados inusitadamente. O latim é demasiado belo para assim ser desperdiçado.

Histórias de poder e enredos emocionais se multiplicam e entrelaçam vezes sem conta num território tão vasto como o Brasileiro. A sua extensão territorial reflecte a complexidade da sua estrutura social, mas ao mesmo tempo, diminui a importância dada a tais histórias. Os políticos que fazem parte da malha social deste país cresceram num ambiente onde lugar político é poder, não só social ou económico, mas também sexual.

H Maiúsculo ansiava talvez por minha mão tocando a sua de leve, sonhava talvez com um mágico trocar de olhares, ou porque não, um meigo toque feminino no seu cabelo que lhe dissesse - Está tudo bem, eu percebo.

Infelizmente para ele e felizmente para mim, nada disso aconteceu, não só porque eu não percebi, mas porque naquele momento, eu só já pensava numa coisa - dormir!

E sem mais demoras, virei para o lado, como quem vira costas a um convite mais íntimo, e disse:

- Agora vou dormir! Desculpa!

E silêncio fez-se. H Maiúsculo levantou de seu assento a meu lado e sumiu. E eu dormi.

Posted by The Assemblagist at 14:15:08 | Permalink | Comments (1) »