Histórias
Contamos histórias. Falamos de coisas que se passaram. Entretemos olhares arregalados. Bocas abertas. Com vivências exóticas. Do além. Tão longe daquilo em que coabitamos. Mas na verdade, também somos nós, seres agora, bem longínquos daqueles dias. Das tardes solarentas. Dos vizinhos que nos invadiam o jardim, de oliveiras e pedras, enormes. Na verdade, também aquelas histórias são para nós de vivências exóticas bem longe daquilo que consideramos parte da nossa existência quotidiana.
E na verdade também… é bem melhor assim. Histórias. Recordações. Partilhas. Todas estas que eu faço duma vida bem distante escondem entre si tudo aquilo que não sou ou que pretendo não ser. Tudo aquilo que não é para ser partilhado. Cresci. E hoje digo que não gosto das montanhas. Do frio gélido da manhã. Do som do latir dos cães em noites quentes de Verão. Do leite fresco. Do vendedor ambulante. Cresci. E hoje o “não-regresso” é definitivo.
Conto histórias. Falo de coisas que talvez se tivessem passado. Entretenho olhares curiosos. Rostos atentos. E de repente… lembro-me se certas belezas. Por instantes, as sombras, os lugares obscuros e a visão das montanhas longínquas cobertas de neve invade-me. E tenho saudades. Breves. Daquilo que eu gostava que tivesse sido. Mas que na verdade nunca foi.
