Friday, August 15, 2008

Entre o ser vítima ou sobrevivente…

Existem semanas que quase seria mais fácil deixá-las passar em branco. Em que os acontecimentos são momentos caóticos de hiper-estímulos e de díficil processamento. Em que quase seria mais fácil de encontrar uma linha linear de narrativa se eu fosse mesmo um mero sistema operativo.

Ontem alguém me perguntou: What are you about? A conversa desenrolou um pouco aos tropeções para nova pergunta: What are you about? Who are you? Em momentos destes quase desejo em que tudo se perca na tradução, porque estar perdido entre dois métodos distintos de comunicação pode levar a desentendimentos linguísticos - até aí eu percebo. Mas a pergunta de quem eu sou, ou quais os meus obejectivos enquanto ser, é uma pergunta que eu pessoalmente não tenho por onde lhe pegar.

Como explicar a alguém que a minha semana de acontecimentos inesperados, caóticos, e em quantidade inusitada - teria sido melhor superada se eu não fosse um ser complexo, que desde a minha pele aos meus orgãos interiores, tudo reage, até a um certo ponto, a estímulos exteriores. E que a informação resultante destes mesmos estímulos nem sempre é a que eu esperava. Como explicar a alguém, que enquanto ser humano, se tiver que ser mesmo comparado a um sistema de processamento com objectivos claros, então sou um sistema sob constante efeito de ‘hacking’, ‘noise’, ‘virus’ - cujo complexidade caótica dá origem a respostas bem diferentes, em momentos diferentes, sobre quem eu sou ou quais os meus objectivos enquanto ser.

Na verdade, a minha semana foi preenchida com uma simples pergunta:

- Qual é o momento em que deixamos de ser vítimas para nos tornármos sobreviventes? 

Enquanto vítima, a atenção é focada na acção negativa exercida sobre tal corpo. Ser vítima de um acidente de carro, ser vítima de violência familiar, ser vítima da vida. Enquanto ser, é-se vítima de acção de terceiros. Há uma estagnação no outro, no exterior, daquilo que fugiu ao nosso controle. Mas enquanto sobrevivente, a atenção está em nós mesmos. A acção negativa foi superada, é reconhecida, mas ultrapassada. Porque a vida continua, e embora a marca fique sempre lá, lidar com a situação na primeira pessoa exige um prosseguir.

E prosseguir nem sempre é linear. E talvez por isso, perguntas como - Que tal foi o teu dia? - nos levem sempre mais longe do que - Who are you?

Posted by The Assemblagist at 17:36:41 | Permalink | Comments (1) »