É a vida

‘”É a vida.” Esta frase com que o apresentador da RTP termina amiúde o Jornal da Noite dá o tema do ambiente mental em que vivemos. “Dar o tom” significa muito mais do que “sugerir” ou “indicar” uma direcção de leitura. Na realidade, constitui por si só toda uma “visão do mundo” e, mais importante, toda uma visão de nós mesmos, da nossa vida enquanto (tele)espectadores do mundo.
(…)
É a vida, pois. Que mais quereis? É a vida lá fora, não há nada a fazer, é assim, vivei a vossa com paz e serenidade, não há nada a temer, é lá longe que tudo acontece e, no entanto, estou aqui eu para vo-lo mostrar inteiro, o mundo, ide, ide às vossas ocupações que a vida continua.’
em Portugal, Hoje de José Gil
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É a vida… a minha rotina independente de todas as outras rotinas, que corre paralela, por vezes quase oblíqua a todas as outras existências circundantes. É a vida… esta existência quase egoísta que ignora o que se passa, que ignora aquilo que não a afecta directamente. Porque o ecrân de vidro protege-nos de acontecimentos inesperados. O ecrân diz que a violência, a desgraça, a mágoa, o desespero… é comum a todos os mortais. E o peso dos outros mortais é maior do que o meu… então não há problema… porque é a vida. E a minha parece mais leve do que a da maioria.
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É a vida… a busca constante deste congelar no tempo de momentos que não se querem fora da vida, mas que ao mesmo tempo já passaram. Mas o passado reflecte-se no presente, e o presente não é mais do que o reflexo do futuro. Mas a existência não é mais do que o resultado de ‘feedback loops’ constantes. Então, agarram-se estes momentos como que se deles se pudesse extrair algo mais… mais do que uma noite bem passada entre um copo de vinho ou uma jarra de cerveja, entre risos e piadas daqueles pequenos (grandes) momentos em que o que foi parece ainda se prolongar.
É a vida… o sorriso que a vida dos outros provoca em nós quando as suas existências cruzam a nossa. Porque certas relações crescem de forma desigual, mais rápida, mais leve… e se propagam intemporalmente.
É a vida… o sorriso que a vida dos outros provoca em nós quando as suas existências cruzam a nossa. Porque certas relações crescem de forma desigual, mais rápida, mais leve… e se propagam intemporalmente.