Sunday, January 27, 2008

Fantasmas, cozinha e afins

Quando a rotina nos absorve quase todos os minutos do dia, quando a rotina se torna quase uma predição (ou não se chamasse a ‘rotina’ de rotina), quando as folhas da agenda ilustram o caotismo duma existência… tudo o que é inesperado torna-se num momento único, para ser aproveitado, prolongado e registrado.

Há uma semana que uma dor de cabeça persistente insiste em dar mostras da sua existência em momentos inesperados por extensões mais ou menos prolongadas. Uns insistem em chamar-lhe dor de cabeça, outros enxaqueca, outros crise de sinusite… seja lá o que for, não parece estar preparada a fazer malas e partir. Então aos poucos, parece tornar-se parte dos meus dias, das minhas manhãs duras, do meu ar cansado. Mas esta dor de cabeça, que não passa com medicação, que me torna mais sensível ao barulho, luz e cheiro… é de certa forma, um despertar dos sentidos. Um despertar para aquelas coisas que a rotina encobre e ignora, que a rotina registra como insignificante.

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Londres tem sido simpática comigo. O ritmo que aqui tenho é de loucos e nunca daria para existir para além de meros meses. Mas as suspresas são constantes. Os meus dias são na sua maioria únicos. Eu gostaria de lhes chamar poesia mundana.

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O Y. escreveu hoje sobre um fantasma italiano de 11 anos. Um fantasma que tem corpo no mundo real. O fantasma é uma existência em dois mundos paralelos que se alimentam um do outro, que se alteram mutuamente, que nem sempre parecem tão distintos o quanto isso. O Y. sonhou com um fantasma… e o seu fantasma transformou o meu dia.

O W. cozinhou para mim ontem. Não que ele nunca o tenha feito antes. Mas ontem foi especial. Mais do que os sabores o que ficou resgistrado foi a experiência visual. A disposição dos ingredientes foi perfeita, o conjunto estético perfeito, o resultado final ficou-me marcado. Comer foi uma experiência conjunta. Afinal os sentidos não funcionam independentemente. Eles informam-se mutuamente. Eles criam uma sintonia constante.

O G. correu para dizer olá. Deu-me um abraço no meio da rua… naquele momento em que eu queria um abraço. Daqueles que por aqui rareiam. Falámos de banalidades. Os carros passavam rapidamente. O barulho atordoava-me. Demos outro abraço e partimos.

A J. fez-me rir. Muito. Alto.

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Quando observados de fora (como se o exterior duma existência pudesse existir) por breves momentos, os meus dias têm, a um outro nível, as suas pequenas contantes surpresas, como se dum constante viajar se tratasse. Há uns meses atrás, alguém me disse, que a verdadeira magia do viajar, não é o viajar em si mesmo, mas a posteriori. É uma nova maneira de vêr que daí advém. E provavelmente, esta sensação de ‘estar preparada para partir’ a qualquer instante nunca mais vai desaparecer: é aprender a valorizar tudo aquilo me rodeia, porque amanhã, a paragem pode ser outra.
Posted by The Assemblagist at 00:53:35 | Permalink | No Comments »