Confrontação
Preciso de fazer a mala. Preciso de empacotar os livros. Em vez disso… bebo uns copos, tomo chá, escrevo, falo sobre a infância no campo, ignoro a mala. Mas o tempo passa. E aos poucos, as doze horas passam a dez, e mais tarde, a cinco. E nesse momento, eu sei - que fugir já não é solução. Aliás, fugir nunca foi a solução, apenas um remedear temporário à espera dum instante de confrontação.
A mala será feita e os livros serão empacotados. O avião sairá a horas. Porque o momento da chegada é sempre belo: os sorrisos que se abrem, as memórias que de repente nos povoam, os cheiros que nos dão as boas vindas a casa, os sons que são música no ouvido. Casa será sempre casa, mesmo depois do momento em que o deixou de ser. Porque a temporalidade da memória nos prega partidas e o regresso sempre torna presente coisas que se julgavam esquecidas perdidas esfumaçadas. Porque a temporalidade da memória nos confronta com as verdadeiras razões de tal regresso.
Amanhã regresso… regresso para celebrar as pequenas grandes belezas da vida, que me acompanham em percursos erráticos e não delineares. Amanhã regresso… porque sei que o momento da chegada é sempre belo, mesmo se de existência angustiada.