Sunday, December 30, 2007

Ciclos e casas

Tenho sete dias para escrever uma enormidade de palavras. Para acabar dois trabalhos que provavelmente serão parte das experiências marcantes de 2007. Eu não me descreveria como uma pessoa nostálgica. Considero que tenho bastante facilidade em deixar para trás o que passou e continuar em frente, quer esse continuar em frente se apresente mais ou menos fácil. Mas gosto de me dar ao luxo de reflectir sobre os últimos meses sempre que Dezembro chega ao fim.

Na verdade, tendo a viver intensamente onze meses e meio do ano para depois deixar os últimos quinze dias passarem relaxamente até o novo ano se iniciar. E talvez esta seja a justificação, para que enquanto muitos esperam ansiosamente pela noite de Ano Novo como uma desculpa para fazerem todas as loucuras que não fizeram durante os prévios doze meses, eu encaro essa noite com tranquilidade. Quase que a poderia passar sozinha, descansada a ouvir um bom som e a saborear um bom vinho.

E também não necessito das doze badaladas ou das doze passas, para pensar na minha lista de objectivos a médio prazo. E embora, listas nos associem a obcessões, a tácticas de produtividade empresarial - a minha lista que se produz uma vez ao ano e se altera muitas vezes durante os meses seguintes - funciona, e isso é o que conta.

Mas o conteúdo da minha lista não é para aqui relevante. Porque este momento, é um momento de reflexão. E 2007 foi um daqueles anos… que dificilmente esquecerei. Não só pelas pessoas que cruzaram e por vezes ficaram, na minha vida; não só pelos lugares visitados, arquitecturas descobertas, palavras aprendidas; não só pelos desafios intelectuais - mas principalmente, porque os ciclos da vida me parecem agora mais naturais, porque ter muitas ‘casas’ deixou de ser problemático, porque aprendi a aceitar que estar dividida não é assim tão mau.

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1. E assim, aquela ‘casa’ que foi casa durante tanto tempo foi deixada para trás, mas não esquecida. Porque os bons filhos da terra à terra sempre voltam. Bristol terminou enquanto ciclo… mas aquilo que lá construí extende-se continuamente.
Bristol é para mim música e muitas festas. É a minha bicicleta cinzenta que me acompanhou para todo o lado e por lá ainda anda. É copos de cerveja e cidra em tardes de Verão na ‘harbourside’. É a minha pequena comunidade ‘tuga’. É jantares e noites de filme em casa da Eva. É o parque de St. Andrews. É muitas noites em branco a ler até as folhas do livro terminarem ou o despertador tocar para ir trabalhar.

2. Brasil era um sonho há muito tempo. Um sonho que se cansou de esperar e que um dia fez as malas e realizou-se. Brasil foi fantástico… é hoje centenas de fotos e milhares de palavras… é hoje uma certeza que lá voltarei. De mochila às costas e sozinha… revelou-se libertador, leve, de possibilidades infinitas. E na verdade, as suas consequências também são infinitas. São que nem um rizome, que se extende continuamente. A sua música, a sua literatura, o seu cinema e artesanato ficaram presos à minha existência. E em cada virar de esquina nos encontramos de novo. Como uma publicidade dizia nos autocarros de Bristol: ‘Start here go anywhere’.

3. Londres era outro velho sonho. Já andava às voltas há quase dez anos aquando da minha primeira visita à cidade. E desde aí, eu soube, que um dia… eu acabaria por aqui. Porque lá no fundo, por mais que eu me queixe do ritmo caótico que tenho aqui - eu sei que este lugar me pertence tal como eu lhe pertenço. A sua ilimitação é-me saudável.

4. Goldsmiths: o início de um outro novo ciclo. Que me dá noites em branco, rotinas erráticas, desafios constantes. É Deleuze, Benjamin, Derrida, Marx. É Massumi, Gil, Terranova. Goldsmiths tornou-me num ‘cool’ rato de biblioteca; deu-me olheiras constantes e dias de mau humor (quando fico bloqueada numa ideia). Goldsmiths também me deu um monte de gente que é assim como eu. E isso deixa-me mais tranquila. Há sempre alguém que nos acompanha na nossa diferença.

5. Mas talvez o que perdurá mesmo, mais do que estes quatro lugares físicos, são as pessoas com quem me cruzei. São as amizades que de certa forma ganharam um novo fôlego. Porque estar longe, por vezes, só nos proxima ainda mais. E como eu digo sempre, o que fazem os lugares são as pessoas que conhecemos. E 2007, mais do que um ano rico em quilómetros percorridos e lugares físicos, foi um ano rico em calor humano, em palavras partilhadas, em risos comuns pela noite fora. Foi um ano de troca e partilha. Que me enriqueceu. Me tornou mais tranquila. Mais feliz. Foi o ano da Joana, da Emma, da Kate, da Hermien.

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Ciclos. Infinitos. Que perduram. Que continuam de uma forma ou de outra. Nasceu a Maya, a Maisy, o Joel, a Cosima. A Lau casou-se. Ciclos. Que por vezes se parecem quebrar. Mas que este ano me pareceram tão fortes.

O que teria Benjamin a dizer sobre estes momentos breves que reflectem o passado e que antecipam o futuro? Qual é o ‘half-second’ destes momentos Massumi? Qual é a sua virtualidade? É a minha existência mesmo rizomática, Deleuze? E tu, Marx, alguma vez perdoarás as minhas muitas horas passadas a ler teorias neo-liberais?

Qual será a minha percepção destes espaços de conflicto, em 2008, em que me extendo e crio raízes, não físicas, mas ilimitadas espaço-temporalmente? Qual serão os lugares físicos de 2008? Será este um ano de outro tipo de viajens? Provavelmente… sim.

Posted by The Assemblagist at 16:50:07 | Permalink | Comments (2)