As sombras no mar
‘A melancolia das lâmpadas, gente por todos os lados, enervada, com pressa. Desde que cresci o Natal tornou-se uma multidão de gente enervada e com pressa. Que não fazem sombra no mar. Não fazem sombra em parte alguma, zangam-se apenas: deve tratar-se do espírito da quadra. Não fui eu que perdi um amigo, foi o Christian que perdeu tudo.’
em Visão, António Lobo Antunes, 24 de Janeiro de 2008
Continuo intrigada com os cavalos que fazem sombra no mar. Continuo intrigada com imagens que povoam a minha memória de forma forte e bem delineada. Os meus cavalos que fazem sombra no mar também são eles momentos em que as folhas fazem um percurso invertido e regressam lentamente aos ramos que haviam habitado, luzes que se vão apagando com o acordar do sol, com o passar dos tons alaranjados, para os rosas… para finalmente receberem de braços abertos o chegar dum novo dia.
Os cavalos que fazem sombra no mar, fazem eles também sombra nas ruas que percorro na volta para casa depois dum dia de trabalho. Percebo agora a melancolia destas ruas, a poesia que as habita nas madrugadas em que as percorro, nas sombras que se definem agora que estão vazias.
Sim… essa é a magia dos momentos em que regresso a casa. O vazio preenchido pelos cavalos que fazem sombra no mar.