Sunday, December 2, 2007

Aqueles dias


‘O escritor é alguém que está autorizado a contar histórias de mentira, a inventar. Frequentemente, aproximamo-nos mais da verdade, inventando factos que cessaram de existir, construindo uma história à volta deles.’

Gunter Grass, em entrevista à Visão 22/11/2007

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Existem pessoas que nunca vão perceber o meu senso de humor. Que nunca vão perceber a minha existência ou opções de vida. Que vão sempre levar a sério aquilo que devia ser carregado adiante com um sorriso nos lábios. Existem pessoas que se aproximam e eu as afasto. Existem pessoas que se aproximam e se afastam naturalmente. E existem pessoas para as quais por vezes não preciso de palavras… porque comunicação é muito mais do que oralidade.

Saber sorrir à vida torna tudo mais leve, carrega-nos sem esforço por caminhos que não nos sabíamos capazes de percorrer. E porque lá no fundo, nós não passamos de personagens duma existência escrita por nós mesmos.

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E de olhar carrancudo Francisco fechou a porta de casa e partiu para o trabalho. Verteu o café sobre o teclado do computador. Sentiu-se irritado. Tropeçou nas escadas e deixou cair uma pilha de documentos. Sentiu-se furioso. Voltou para casa. Sentou-se no sofá e abriu uma lata de cerveja. Doíam-lhe as costas. Doía-lhe o corpo.

E de olhar triste mas de sorriso no rosto Francisco fechou a porta de casa e partiu para o trabalho. A vizinha do primeiro andar sorriu-lhe. Encheu-lhe o coração e disse - Bom dia! Verteu o café sobre o teclado do computador. Há dias que são assim, mas que fazer? Limpou o teclado e voltou ao trabalho. Tropeçou nas escadas e deixou cair uma pilha de documentos. Sentou-se na escada e riu-se. À que rir para não chorar. Voltou para casa. Encheu a banheira e pôs o seu disco favorito a tocar. Não há nada como dormir para despertar para um novo dia. Porque há dias em que era melhor não sair da cama. Mas não temos nós todos, dias como esses?

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Passaram setecentos e doze dias. Eu não sou de celebrações. Na maioria das vezes passam-me ao lado. Gosto de festa no meu dia de anos, mas só para me relembrar como eu sou uma sortuda por ter as pessoas que tenho na minha vida. Mas há dias que merecem ser relembrados. Principalmente aqueles que causaram tanta mágoa, mas que deram origem a todo um círculo vicioso de coisas boas. Porque aprendi, que lá no fundo eu não passo duma personagem da minha própria vida. E assim escrevo aquilo que me espera a cada momento. E por vezes, tenho que voltar atrás e alterar o rumo da história - porque nem sempre é possível lembrar que é preciso sorrir. Sorrir para lembrar e relembrar aqueles que nos rodeiam. Sorrir para continuar o amanhã. Sorrir para poder bater a porta de casa todas as manhãs sem ter que contar os minutos para estar de volta. Sorrir… porque é preciso saber sorrir.

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Assim… aqueles dias, nunca passarão mais do que aqueles dias, dum Inverno gelado, o mais frio de que tenho memória. Aqueles dias já foram escritos numa história mais ou menos inventada, uma história que um dia não passará duma simples história.
Aqueles dias… nunca passarão de ‘aqueles dias’!
Posted by The Assemblagist at 00:40:23 | Permalink | Comments (2)