A vida é um sopro
A vida é… questionada nos momentos em que aqueles que consideramos os pilares da nossa casa, desaparecem. Já lá vão quase cinco anos. Como tudo passa tão depressa. Como o ser humano se adapta e sobrevive. Mas existem pequenos minutos… breves momentos em que fechamos os olhos e nos sentimos como que se todo aquele tempo nunca tivesse passado.
O Joaquim morreu há cinco anos. A Inácia seis meses depois. Foi um ano de muitas mudanças. Um ano de muitas exigências físicas. Emocionais. Alterações rápidas. Quase radicais. E no entanto, o tempo passou. E tudo mudou. Mas de uma forma ou de outra, todos nós por cá continuamos e encontrámos os nossos caminhos, que por vezes se cruzam pacificamente e que outras vezes, causam choques imprevistos.
No dia de Natal fui ao cemitério. Levámos flores. Limpámos as campas. É uma rotina quase destrutiva. Mas de certa forma, ajuda-nos a prosseguir. A mim e à minha mãe. Eu nunca choro – só observo. É como se naquele breve instante, inconscientemente, eu soubesse, que eu sou o pilar dela.
Caminhamos para a portão de saída. Há uma campa que nos aperta o coração às duas. Sempre. Está cheia de flores frescas. Alguém novo, conhecido da terra, que morreu à dois anos num acidente de automóvel. As flores frescas carregam consigo um peso emocional indescritível. Representam o ‘sopro da vida’. A sua brevidade. Representam a importância que esse sopro continua a ter na vida de outros alguéns, que continuamente o renovam. Outros alguéns para quem ‘a rotina quase destrutiva’ é a única forma de sobrevivência.
As lágrimas correm-me agora.
O Joaquim e a Inácia deixaram vazios. Mas esses vazios vão aos poucos preenchendo-se. São parte do ciclo da vida. A próxima geração aproxima-se. A filha, que agora é mãe será brevemente avó. A casa deles é agora preenchida por risos e gritos de crianças no quintal. A minha casa de infância é agora um infantário. O que de certa forma, me deixa feliz. Parece um prolongar daquilo que aquele espaço foi para mim. Um espaço de brincadeiras de miúdos… assustados pelos compartimentos múltiplos, pelo corredor infinito, pelos recantos escuros. Um espaço de histórias, de cantares alentejanos, das primeiras letras escritas e lidas, dos primeiros bolos.
Mas as lágrimas continuam a correr. Porque o que me aperta mesmo, é a história daqueles ‘sopros de vida’ dos quais o ciclo me parece demasiado curto. Daqueles que ficam e que de alguma forma, têm que continuar e encontrar o seu caminho… mas com vazios que nunca poderão ser preenchidos.
A complexidade das relações que constroem o quotidiano familiar é por vezes, de difícil compreensão. E em certos dias… eu não me acho capaz de tal abertura e disponibilidade. Mas lá no fundo… o que seria o nosso ‘sopro’ sem todos estes ‘sopros’ que nos rodeiam? Porque como Oscar diz: ‘a vida é um sopro’. Só que uns sopros são mais breves do que outros. E eu não quero perdê-los de vista.