A Essência do Ser

Este deveria ser um texto sobre a análise de Heidegger sobre a essência do ser, sobre a obra de arte, sobre tecnologia. Mas na verdade todas essas coisas que eu passo horas a debater, a reflectir e por vezes a rir… pareceriam aqui quase que demasiado pretenciosas.
A forma como cada qual usufrui do tempo que tem nas mãos enquanto direito seu daria por vezes origem a debates acesos. Eu passo horas a mais online fazendo as mais variadas coisas… mas na sua maioria coisas que não se podem medir em termos de capital, coisas às quais não se pode atribuir um valor material. Eu passo demasiadas horas de volta, ou duma chávena de café ou dum copo de cerveja. Provavelmente grande parte da minha vida académica acontece à mesa do café. Eu passo mais horas do que devia na biblioteca abservando o mundo exterior pela janela do terceiro andar enquanto me deixo absorver por ideias abstractas. Eu passo horas intermináveis pensando em espaço, teorias de poder, movimento e outras coisas afins.
A minha rotina diária se fosse analizada pelos consultores que trabalham no outro lado do rio seria considerada um desperdício de espaço. A minha productividade em termos de capital é zero. A minha vontade para produzir mais-valias materias é inexistente.
Talvez um dia eu venha a escrever sobre todas aquelas coisas que eu discuto e divago enquanto me intoxico de café de forma a reduzir ou o resultado das insónias da noite anterior ou a intoxicação de substâncias menos saudáveis para o meu organismo. Talvez eu um dia consiga deixar materializado uma legacia… mas provavelmente, a minha passagem por aqui será como qualquer outra passagem, talvez apenas com um pouco menos de productividade humana ou uma quantidade menor de bens materiais, ambos não por falta de alternativa mas por escolha consciente.
O que me anima por entre mesas de café é a quantidade de membros deste meu clube não-totalmente-absorvidos-no-sistema-produtivo deste país. Manter um pouco a vida na corda bamba da sociedade é também uma solução possível. E enquanto indivíduo todos nós temos essa opção como uma opção plausível de vivência. É claro que mesas de café ou copos de cerveja não alimentam ninguém, mas quantos não são que mesmo trabalhando 12 horas por dia não conseguem alimentar as suas angústias?