Sunday, March 8, 2009

Pai

É sobrevaloriazada esta noção de pai biológico, de herança genética que nos liga para a vida, o sangue que nos corre nas veias, o ser pai porque o é. Direitos adquiridos por uma mera ejaculação precoce é e sempre será problemática.

Dizem que ele viu o nascimento do primeiro filho. Parado. No canto da sala. Estagnado. Foi demais. Os seguintes foram consequentemente despejados à porta da maternidade - a porta abriu, a mulher saíu, o carro deu meia volta e desapareceu. Era dia de trabalho. Os outros filhos precisavam de ir para o infantário. Sei lá. Sei lá, tantas vezes na vida que foi assim. O carro virou e desapareceu. O silêncio dos ausentes, daqueles que não presenciam a angústia diária - para um dia nos telefonarem e dizerem. Hoje é Domingo, e ao Domingo eu sou pai. De conversa breve, o ser pai é também em si uma brevidade. O telefone desliga-se. O silêncio dos ausentes novamente. Quantas vezes se grita sem voz. O silêncio dos ausentes é o de maior revolta. Os ausentes que nunca foram escolhidos ou eleitos, que têm o seu lugar numa vida apenas pela sua precocidade, que se eternizam pelo telefonema de Domingo, ou pelo mesmo silêncio de sempre.

Somos assim objectos andantes não identificados na vida de pais de partilhas genéticas sem qualquer prolongamento extra-carnal. As brevidades de Domingo são as menos duras. As mais leves no ânimo desta partilha genética quase casual. A brevidade de Domingo, aquela que antecede o silêncio dos ausentes é a mais suportável pela sua não-visibilidade. Não-partilha. Pela distância eterna, em que ali não se esforça por alterar. Os gritos sem voz são menos frequentes. Menos intensos. No entanto, ser pai precisa de presença física - e esta é sem dúvida a mais dura. A de marcas profundas. A de lágrimas secas, gritos silenciosos, destruição imóvel. A imagem do carro que virou e desapareceu. A imagem da mulher sozinha. Da ausência do homem. No canto. Estagnado. Assustado. É a presença constante desta partilha genética. E naquelas três vezes do ano em que ser pai se prolonga para além dos breves instantes de Domingo a imagem do carro que virou e partiu faz eco na sala, alimenta aquilo que nunca se disse, que não se diz, que se engole a seco. Levanta-se da sala. Diz-se boa noite. 

E digo: até um dia. Quem sabe se um dia. Um dia.  

Posted by The Assemblagist at 00:47:04 | Permalink | No Comments »

Sunday, March 1, 2009

A Casualidade de Des/Encontros

Se existem semanas em que é impossível não escrever - existem outras em que pareço secar. É como sentar na escada da porta e esperar… esperar enquanto o sol desce e volta subir, enquanto as crianças vão e voltam da escola, enquanto as rugas de expressão se vão acentuando nos cantos do nosso rosto com o passar dos anos. Nestas semanas a escrita nunca vem. Ausenta-se. Tem havido semanas que se prolongam por anos. Nesses anos, a escrita é forçada, é seca, é dura, quase de díficil contentamento. É a escrita dos egoístas - daqueles que querem dizer o que para o qual não existem palavras.

Semana seca. Dias de vivência de dias que se retornam em si mesmo. São momentos de quase-quase revolta. Levantem-se as armas - alguém ordena. Faz a tua voz ser ouvida. Mas como tornar audível o que é mudo? Em tempos de agitação há sempre aqueles que desertam. Que se tornam invisíveis. Que se escondem em cantos de pátios interiores. A revolta cresce lá fora, a revolução está quase a acontecer - mas eles não acreditam. Fazem-se cegos. Fazem-se surdos. Tornam-se mudos. Forçam a secagem da sua mesma existência.

Acredito que a expectativa contínua e forçada por um amanhã mais brilhante, de céu mais intenso e de cabelos ao vento pela costa de pôr-do-sol congelado (numa iminência de nunca mais ter fim) - num amanhã de beleza de puro eterno êxtase - é a auto-secagem existencial. Como posso eu ficar contente com o sol que brilha por entre as nuvens de olhar tímido, se eu sei que amanhã pode ser pura extravagância solar?

Assim - tentando um contentar maior por uma timidez solar - imponho a esta semana seca, uma escrita forçada, como quem tenta pelo por prazer da tentativa… com modéstia, sem a expectativa de palavras nobres, de palavras de inspiração sobre-natural (porque essas, na verdade, não existem) e escrevo. Afinal, a lição que esta estada em Lisboa me tem ensinado - é que o amanhã pode nunca chegar. E o hoje, tem uma casualidade bem mais excitante, hilariante, aterradora. Os desencontos contantes com o amanhã esperado à sombreira da porta - levam-nos sempre a outros encontros, quando a timidez solar é saboreada como o pôr-do-sol que nunca mais acaba. Gosto. Gosto muito. Daqui.

Posted by The Assemblagist at 18:19:44 | Permalink | No Comments »

Sunday, February 15, 2009

Voltar a casa II

1. Ontem queria escrever este mesmo texto. Mas tal não aconteceu. Apenas houve tempo para fazer o upload da foto. - A minha semana foi mesmo assim. O contínuo começar, interromper e reiniciar de acções. Momentos cortados. Interlaçados. Como que se aos poucos esta tapeçaria existencial começasse a ter sentido.

Voltar a casa não tem sido fácil. E eu continuo a sentir tal acção - do abrir da porta, desfazer as malas e acordar pela primeira vez no meu novo quarto - como um momento que ainda não terminou. E na verdade, já lá vão mais de três meses. Mas ainda não sinto este espaço, como o meu espaço - mesmo quando aos poucos vou descobrindo os cantos à casa, vou reencontrando espaços que viveram tão fortemente na minha memória durante todos os anos em que estive fora. E talvez o problema não seja desta nova ‘já conhecida’ casa - mas sim desta falha humana de contínuo projectar no futuro, como se o agora nunca fosse suficiente, como se o instante pudesse terminar abruptamente quando o amanhã já não estiver planeado. 

2. Esta semana, que foi totalmente dedicada a mim… trouxe-me alegrias inesperadas. E tornou o ar da cidade, mais leve. O sol que já não brilhava intensamente há cinco semanas, finalmente regressou - e de repente tenho a sensação de que já tinha esquecido o quão agradável é acordar de manhã com esta luz intensa. Os dentes que há seis anos andava a adiar para os tirar - começaram finalmente a seguir o seu destino - que é definitivamente fora do meu maxilar. E na mesma manhã que regressava do dentista e entrava no quarto com a mala numa mão e o pacote de gelo na outra, encontrei uma encomenda na cama. O envelope gigante vinha de Londres, da Kate. Abri. Encontrei mais outro pacote, que tinha vindo de São Paulo. O coração começou-me a bater mais forte. De repente senti uma felicidade aterradora, mesmo antes de abrir o pacote. - Ali, há minha frente encontrava-se o filme que marcou a minha estadia na Baía: Ó Paí, Ó. O filme que teria ter trazido na mala comigo. O filme do qual os cenários me são tão familiares. O filme cuja banda sonora me leva de volta ao território brasileiro com uma mochila às costas.

3. E Sábado… com a sua leveza de fim-de-semana sem hora de ponta - trouxe-me gaspacho, a cerâmica de Heitor Figueiredo dum mundo chamado ‘Cacos Mágicos na Cabeça Gorda’, e um encontro frente a frente com o rapaz dos olhos cor do mar. Encontros de camadas múltiplas, que se vão esbatendo e atenuando, encontrando entre si elos de ligação. E talvez o voltar a casa esteja aos poucos a tornar-se um ‘estar em casa’.

Posted by The Assemblagist at 13:33:56 | Permalink | No Comments »

Friday, February 13, 2009

Voltar a casa

Posted by The Assemblagist at 23:28:16 | Permalink | Comments (1) »

Monday, February 9, 2009

Heartburn

Passaram 18 meses. E de repente a mesma música de há 18 meses atrás entra-me pela vida adentro novamente. Sem aviso. Como sempre. Em comum, pouco existe - apenas este momentum de mudança, que ainda não se sabe qual vai ser a decisão final. Um momentum que é como portas abertas, não só para um conjunto que me parece infinito, de potencialidades, assim como de portas abertas a um flashback constante de momentos como este: em que o que vem aí é bem diferente do já conhecido.

Heartburn. É o incómodo de tomar decisões. De fazer escolhas. De dizer não a algo que parecia inicialmente tão promissor. Espalham-se os pontos de concentração. Que se tornam então em dispersão. Numa perdição espaço-temporal.
Heartburn. Nos instantes que antecedem a uma angústia que me consome interiormente, que parece fogo, que se propaga lentamente, mas nem por isso menos intensamente.

Recebi o email da T. hoje. Também ela está assim… dividida entre potencialidades, sabendo que a afirmação de uma é a negação imediata de outra. De que nos valerá a racionalidade em momentos como este? Como é possível validar um percurso enquanto a negação de outro percurso que poderia ser também em si mesmo tão promissor? Como dizer não a uma parte de existência que se quer tão intensamente como o agora? 

Posted by The Assemblagist at 22:28:22 | Permalink | No Comments »

Thursday, February 5, 2009

Lisboa em Janeiro

Há histórias que começam logo tristes - que cujas primeiras linhas já nos apertam a alma, histórias que se sabe que o desenrolar em nada se aparenta feliz, ou alegre ou renovador. Há histórias de vida que parecem só ali estar para nos relembrarem - que a vida podia ser bem diferente. A sua existência só pode por nós ser encarada desta forma. Senão, seria demasiado difícil encarar esta vida a que chamamos vida.

E embora já esteja saturada desta chuva constante de Janeiro - o ano não podia começar da melhor forma. Dias cinzentos, roupas escuras, halls de entrada enlameados… que não nos deixam tirar dos ombros este peso pesado. A mágoa da vida alheia cuja história nós queríamos que apenas existisse para nos relembrar - está ali, com a sua presença contínua.

Há histórias que eram felizes há uns meses e que agora se vêem envoltas nesta neblina que nem S. Sebastião poderia, de certa forma levantar. Esfumar. Atenuar. Lisboa molhada, com chuva de pingos gordos em hora de ponta tem uma melancolia de uma cidade que eu não conhecia. E de repente, enquanto espero que o semáforo mude de cor… sinto-me em Londres, sinto-me anónina, sinto que talvez ainda exista uma hipótese de sobrevivência.

As histórias pesadas acompanham-me. Deixam-me estagnada. Como eu gostaria de as poder partilhar. Apenas sei o quanto elas chocam. A alteração do olhar, da respiração, da postura na cadeira - aquando da sua partilha. E por momentos… quero que esta chuva de Janeiro (mesmo em Fevereiro) se prolongue por várias semanas - que se extenda, até que todos nós possamos encarar de frente, de olhos nos olhos, estas pessoas, cujas vidas perderam a luz.

Posted by The Assemblagist at 19:28:58 | Permalink | No Comments »

Saturday, January 31, 2009

Em Portugal

Há três meses regressei a Lisboa. E depois de uma noite de neve, chuva e muito frio em Londres, passada a jantar pela última vez em Kingsland Road e a falar das minhas últimas aventuras londrinas a uma antiga companheira de viagem, cheguei carregada a Lisboa. Com muitos livros na bagagem. Nenhumas prendas. E muitos projectos.

E se tem muitos dias em que o ritmo aqui é frustrante, demasiado lento para mim, e que quase dá comigo em doida - tem outros em que existe uma brecha de luz. De calor humano. E de muita gente que realmente quer fazer coisas. E no fundo, foi isso que me trouxe de volta - esta vontade de fazer coisas juntos, que por vezes encontro aqui, e que tão raramente encontrei noutras paragens. Porque as frustrações e as desigualdades criam em si mesmo, uma agitação - que um dia tem que sair cá para fora.

E assim em Portugal, a brecha breve de luz de certos dias - é o suficiente para continuar a acreditar - que existem lugares mais certos do que outros. Mesmo que me deixem constantemente nesta situação de não-balanço. E de não-pertença.

Posted by The Assemblagist at 15:36:39 | Permalink | Comments (1) »

Monday, January 26, 2009

Primavera (prematura)

Hoje cheira-me e soa-me a Primavera. Prematura, eu sei. Ilusão, eu sei. Mas o cheiro da roupa a secar nos estendais, o chilrear dos pássaros e a luz forte depois de uma semana de chuva são um êxtase para os sentidos. Como poderão estes ignorar, o que para eles mesmos, não passa de uma breve passagem da Primavera em Janeiro?

Sempre sonhei em fazer anos na Primavera. No entanto, o meu aniversário calha no Inverno - e em relação a isso pouco posso fazer. Assim, ano após ano, torço para que no dia 2 de Março, os pássaros cantem, os estendais estejam cheios de roupa e o sol brilhe com muita intensidade… mesmo que o calor seja ainda uma ausência. Porque assim, nesse breve dia, posso fechar os olhos e deixar os meus sentidos dizerem-me que afinal a Primavera já chegou.

Posted by The Assemblagist at 12:16:53 | Permalink | No Comments »

Sunday, January 25, 2009

O livro

Uma semana azul… talvez com um ritmo mais errático. Esteve frio. Eu gosto da sensação de vento gélido a cortar-me o rosto. Da sensação de alívio de quando se fecha a porta de casa. Da corrente de ar que é de repente cortada. E assim, num instante, sente-se o silêncio aqui e o ruído da vida agitada lá fora. Gosto do frio com luz. Das manhãs gélidas, da madeira que estala, dos ombros que se encolhem como se de tartarugas nos tratássemos. Manhãs frias e céu azul aquecem-me os sentidos.

O Inverno com a sua brutalidade, com a sua rispidez - é-nos ao mesmo tempo agradável à introspecção. Está frio. Está um gelo. Hoje não dá mesmo para sair. E assim, a mágoa que em certos dias nos consome vê-se livre da obrigação de sorrisos forçados. A porta está fechada. Cá dentro o silêncio impera. O ritmo é de quase monotomia, de leve aroma a madeira queimada, a vinho tinto que ficou no copo na noite anterior.

E assim, no mesmo Inverno em que perdi a graça da graça - vejo de novo as mesmas personagens que há tanto me habitam e há ainda mais tempo tento ignorar - o escritor é aquele que se vê forçado a escrever, ou então, digo eu, aquele que mais não consegue ter preso em si as personagens que o co-habitam, aquele ao qual o seu desespero leva à partilha destas vidas coincidentes com a sua, que lhe dizem baixinho ao ouvido quando a noite chega - vá lá, é assim tão difícil deixares-me co-existir no exterior dum mundo em que tu imperas?

As imagens tornam-se cada vez mais frequentes, mais visuais, mais complexas. O seu realismo começa a ser tanto que quase me atormenta. Talvez o luto seja mesmo esta existência de vontades e desejos que se agitam e exponenciam em verdadeiros actos de violência visual interior - porque é tão mais difícil deixa-los simplesmente existir. Como será possível não tentar prolongar a existência daqueles que nunca aceitámos que tivessem acreditado que já chegava, que o percurso tinha finalmente chegado ao fim?

O livro da graça tem mãos finas e magras do sofrimento, tem ossos gelados, tem o reflexo da vida que já lá não habita. O livro da graça é o do choro leve e escondido. É aquele acreditar que a vida pode mesmo ser normal quando nos amputam aquilo que faz de nós o que somos - ou éramos. A falta da graça da graça exige a um reconstruir duma existência que agora me parece tão cheia de lacunas e ambiguidades.

Posted by The Assemblagist at 18:55:39 | Permalink | Comments (1) »

Monday, January 19, 2009

A Inocência da Insónia

Sei que as horas passam quase que lentamente, que se estendem na minha própria perspectiva. Fico acordada. No entanto, o que parece ser o estender de uma noite, é no entretanto, a face inocente desta minha insónia. A intensidade dos dias anteriores fez com que neste primeiro instante de vazio, as imagens passem a uma velocidade alucinante, enquanto eu mesma reflicto sobre este estender da noite.


 

Chove
em Alvito. Nunca esqueço a chuva do Alvito. Ficou marcada. Marca a melancolia das noites longas, das imagens rápidas, do caminhar que leva a um processamento dessa informação. Chove em Alvito. A luz é amarelo tosco. A já não presença da graça continua a marcar este vazio profundo. Compreendo agora a falta de comunicação. A dor/a perda tranca-nos em nós mesmos. A dor/a perda dá-nos quase raiva daqueles que também lá estavam.

 

Mas as imagens hoje são tantas. Tantas quantas as que habitaram o mês passado. Processo tudo. Ou talvez não. O certo, é que hoje a noite é longa, é lenta, é azul aqui e de chuva no Alvito. Sou uma máquina cinemática. Fecho os olhos e tudo acelera. O vazio tenta de forma tão desesperada ser preenchido e explicado. Alguém me disse que a inocência daqueles dias fez com que tanta coisa passasse despercebida. Porque pensamos nós que estaríamos agora melhor preparados para viver o passado? Porque consideramos ter em falta sempre esta capacidade de se calhar o termos vivido ao máximo?

 

Talvez tenha sido a chuva do Alvito o iniciar disto tudo. O certo é que hoje não chove aqui. A companhia é outra. A garrafa de vinho foi também dispensada. E no vazio, eu tenho mesmo só o Bon. Mas haveria alguém melhor do que ele nesta noite de incongruências? Mesmo num futuro recordar do passado?

Posted by The Assemblagist at 12:23:55 | Permalink | No Comments »