Um dia aqui II
As imagens da minha vida são sempre de mar, de portos de partida, de horizontes longínquos, de um vento que de tão gelado nos corta a pele, de dias aqui que por vezes se quiseram tão desesperadamente ser para lá do aqui. As imagens da minha vida que ficaram gravadas no instante antes de descer a montanha, de decidir o rumo para além das trilhas já marcadas, vão-se sobrepondo, como camadas transparentes que aos poucos se vão diluindo nas paredes vermelhas. Evocam. Evocam momentos que nem sempre se tem a certeza de que foram presenciados.
Há uma nova pausa. Um novo respirar. E eu regresso, à companhia de quem de costas me conta -amanhã parto novamente, e o simplesmente aqui, terá mais uma vez sido, apenas um momento de pausa. - És o marinheiro que na ausência do porto de partida, imagina sempre o regresso a casa, o ficar, o deixar o tempo das tardes quentes de Verão passar demoradamente. O regressar a casa nunca foi tanto o estar em casa como na hora da partida. Um dia simplesmente aqui - era também o que eu queria, agora que a visão desta tarde solarenta é marcada pela luz de quem se põe a oeste e a tudo toca com os seus tons laranjas avermelhados.