Saturday, April 4, 2009

Cada um é como é

Caminho. Saio em direcção a casa. É já o fim de uma noite e o princípio de outra. A luz com o seu amarelo tosco e os sons que se propagam criam uma passadeira de transeuntes observadores. Os que têm já destino marcado e os que ficam. Algumas luzes começam agora a desaparecer, outras a mudar de tom. O fim de uma noite dita o recolher das esplanadas de peixe fresco, o desaparecer de homens de laço preto e menu na mão, a ausência de ecos estrangeiros de quem tenta decifrar de dicionário na mão a sua sorte palativa. O outra noite trás no entanto públicos mais distintos, sons de gargalhadas altas, uma ou outra bicicleta isolada, seres que se querem arrastar por aqui até ao novo amanhacer. E eu caminho. Em direcção a casa. Entre uma e outra noite pela passadeira de observadores. Cada um é como é - diz o senhor de barba branca para o tocador de flauta. 

Gosto das fachadas de azulejos ignorados. Das portadas de madeira. Dos andares de que não se tem a certeza se estão habitados ou não. Caminho. Sou distanciada. Aprecio o eco de quem ri, de quem canta, de quem enrola seus dizeres depois de muito vinho tinto. Gosto de Lisboa à noite. Nos dias de semana. Nas noites entre a humidade de Inverno e a moleza de Verão. Cada um é como é - diz o velho de roupas já gastas da vida para o tocador de flauta. Repito. Repito mais uma vez. Cada um é como é. As verdades da sabedoria de quem faz vida pelas ruas de Lisboa.

Posted by The Assemblagist at 16:33:01
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