Wednesday, April 15, 2009

O dia de amanhã

Escrevo desde que me lembro gente. Mentira. Primeiro li pela noite fora durante anos. Depois comecei a escrever. Em folhas soltas. Papel branco, às riscas, talões de compras, toalhas de mesa. Algumas folhas desapareceram, outras tornaram-se ridículas no seu conteúdo e foram rasgadas em quatro, e uma pequena minoria acabou em pastas dentro de gavetas ou armários nas casas da minha vida. Em Lisboa. No Alentejo. Nas montanhas. Por vezes quando menos espero encontro uma tentativa de poema, uma canção (método muito popular nos meus primeiros anos de adolescência), rascunhos de palavras soltas, e por vezes partilhas profundas, de quem odeia o diário mas que precisa da palavra escrita constante.
Tem havido dias em que a palavra falada é demasiado dura ou cruel, que a realidade daquele momento em voz alta nos faria pôr em questão a continuação duma existência assim - e ao longo de tantos anos, em todos esses dias, existiu uma folha solta. Ontem, por acaso, mesmo por mero acaso encontrei três textos de 2005. De meses diferentes. Mas com a mesma angústia. O desespero de quem sabe que a mudança tem que ser impulsionada, mas a quem lhe falta a coragem para fazer as malas e começar de novo. Acabei por fazer as malas. E comecei de novo. A minha surpresa foi aperceber-me de como a mudança parece sempre bem mais fácil aquando se alcança estabilidade novamente. A perspectiva do dia de amanhã nem sempre acalma aqueles que iniciam uma estrada nova.
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Tuesday, April 7, 2009

Um dia aqui II

Uma voz feminina chega-me da mesa do café de paredes vermelhas e imagens que parecem tiradas do imaginário de Almodovar - o que eu queria era, simplesmente, um dia aqui. - Há uma pausa. Uma respiração profunda. - no entanto, parece alguém ter agitado a água da minha vida, e tudo parece agora, de uma ou outra forma, que um dia aqui, nunca poderá ser, simplesmente, aqui. - Não vejo o rosto, o olhar longínquo, ou mesmo a expressão de constragimento. A voz que fala está de costas para mim. A voz que fala tem provavelmente uma outra plateia, um ouvinte cúmplice. Eu apenas acompanho parte do diálogo. A minha solidão, naquela mesa de café de tons vermelho escuro que de certa forma me lembra outros cantos da minha vida - eu que já tive um quarto vermelho e um violeta claro e que agora me vou ficando pelo branco - obriga, naquele instante, a um simplesmente aqui.

As imagens da minha vida são sempre de mar, de portos de partida, de horizontes longínquos, de um vento que de tão gelado nos corta a pele, de dias aqui que por vezes se quiseram tão desesperadamente ser para lá do aqui. As imagens da minha vida que ficaram gravadas no instante antes de descer a montanha, de decidir o rumo para além das trilhas já marcadas, vão-se sobrepondo, como camadas transparentes que aos poucos se vão diluindo nas paredes vermelhas. Evocam. Evocam momentos que nem sempre se tem a certeza de que foram presenciados.

Há uma nova pausa. Um novo respirar. E eu regresso, à companhia de quem de costas me conta -amanhã parto novamente, e o simplesmente aqui, terá mais uma vez sido, apenas um momento de pausa. - És o marinheiro que na ausência do porto de partida, imagina sempre o regresso a casa, o ficar, o deixar o tempo das tardes quentes de Verão passar demoradamente. O regressar a casa nunca foi tanto o estar em casa como na hora da partida. Um dia simplesmente aqui - era também o que eu queria, agora que a visão desta tarde solarenta é marcada pela luz de quem se põe a oeste e a tudo toca com os seus tons laranjas avermelhados. 

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Saturday, April 4, 2009

Cada um é como é

Caminho. Saio em direcção a casa. É já o fim de uma noite e o princípio de outra. A luz com o seu amarelo tosco e os sons que se propagam criam uma passadeira de transeuntes observadores. Os que têm já destino marcado e os que ficam. Algumas luzes começam agora a desaparecer, outras a mudar de tom. O fim de uma noite dita o recolher das esplanadas de peixe fresco, o desaparecer de homens de laço preto e menu na mão, a ausência de ecos estrangeiros de quem tenta decifrar de dicionário na mão a sua sorte palativa. O outra noite trás no entanto públicos mais distintos, sons de gargalhadas altas, uma ou outra bicicleta isolada, seres que se querem arrastar por aqui até ao novo amanhacer. E eu caminho. Em direcção a casa. Entre uma e outra noite pela passadeira de observadores. Cada um é como é - diz o senhor de barba branca para o tocador de flauta. 

Gosto das fachadas de azulejos ignorados. Das portadas de madeira. Dos andares de que não se tem a certeza se estão habitados ou não. Caminho. Sou distanciada. Aprecio o eco de quem ri, de quem canta, de quem enrola seus dizeres depois de muito vinho tinto. Gosto de Lisboa à noite. Nos dias de semana. Nas noites entre a humidade de Inverno e a moleza de Verão. Cada um é como é - diz o velho de roupas já gastas da vida para o tocador de flauta. Repito. Repito mais uma vez. Cada um é como é. As verdades da sabedoria de quem faz vida pelas ruas de Lisboa.

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