Criados brancos
1. Criados brancos de cabelo bem apertado na nuca, que se vestem de fardas pretas e cinzentas com aventais brancos que foram outrora expostos a longas horas de luz solar. São tesos. Rígidos da sua secura. Criados invisiveís que estão à porta das casas, que nos deixam entrar, que tentam sorrir num olhar duro, de quem nos condena todas as opções, todas as escolhas, todas as acomodações duma existência rídicula - que eu diria quase sem sal. Sem pimenta. O olhar é ainda mais duro - como pudeste tu, sim tu, deixares derrotar-te de forma tão fácil? - As lágrimas parecem prestes a descer, os olhos brilham de tristeza: a mágoa dos pais que lutaram por uma liberdade que nunca soubemos apreciar. A luta dos outros é sempre tão fácil de desprezar.
Criados brancos que outrora pensaram que um dia o mundo seria seu, que o carro seria maior, que a porta da casa daria para um jardim de relva verde e um balouço nas traseiras. Os cabelos são perfeitos, parte de uma imagem polida, esbranquiçada, monótona. Criados brancos apáticos que nos abrem a porta, que trazem café quase do dia anterior, e nos seus gestos cuidados, mas nem menos assim, de menor revolta nos dizem novamente - como pudeste tu, sim tu, nunca escrever em letras grandes nas páginas principais da tua vida esta vergonha? o silêncio de quem lutou uma vida toda para agora sobreviver assim? como pudeste tu? - O olhar é frio, a ausência do calor humano é notória, as mágoas da vida repreendem-nos.
Criados brancos em tons cinzentos e pretos, que estão gastos, mas mesmo assim sobrevivem. Aguentam. Esperam. - como pudeste tu não honrar a minha luta e deixares-me assim, aqui, no esquecimento? como pudeste tu pensar que o caminho percorrido nada te tem a ensinar a ti, que vives dos louros das lutas de outrora? - O olhar é reprovador. Sempre. Mas a espera , essa, é paciente. Olhos de raiva que tanto se aproximam da paixão dos dias de marcha na rua e cânticos revolucionários.
Criados brancos que outrora pensaram que um dia o mundo seria seu, que o carro seria maior, que a porta da casa daria para um jardim de relva verde e um balouço nas traseiras. Os cabelos são perfeitos, parte de uma imagem polida, esbranquiçada, monótona. Criados brancos apáticos que nos abrem a porta, que trazem café quase do dia anterior, e nos seus gestos cuidados, mas nem menos assim, de menor revolta nos dizem novamente - como pudeste tu, sim tu, nunca escrever em letras grandes nas páginas principais da tua vida esta vergonha? o silêncio de quem lutou uma vida toda para agora sobreviver assim? como pudeste tu? - O olhar é frio, a ausência do calor humano é notória, as mágoas da vida repreendem-nos.
Criados brancos em tons cinzentos e pretos, que estão gastos, mas mesmo assim sobrevivem. Aguentam. Esperam. - como pudeste tu não honrar a minha luta e deixares-me assim, aqui, no esquecimento? como pudeste tu pensar que o caminho percorrido nada te tem a ensinar a ti, que vives dos louros das lutas de outrora? - O olhar é reprovador. Sempre. Mas a espera , essa, é paciente. Olhos de raiva que tanto se aproximam da paixão dos dias de marcha na rua e cânticos revolucionários.
2. Dizem-nos que a luta armada nada alcança. Crescemos assim. E contra isso, pouco podem fazer os criados brancos. Há muito que esquecemos que o carro maior, o jardim com o baloiço nas traseiras era parte de um sonho maior, duma vizinhança humana, duma troca de conversa em vãos de escada e portadas de madeira. Há muito que foi apagado essa parte do sonho. O que temos agora perante nós é apenas uma ilusão do que poderia ter sido e nunca foi. E quanto a isso… poucos olhares frios terão a força para fazer a mudança, para trazer à rua um confratimento maior. A luta armada de cânticos revolucionários não é um mal maior para relembrar o esquecimento. - é um bem necessário - dizem-me, todos os dias.
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17:57:13