Sunday, March 22, 2009

Parati II

Edito a história de alguém. Tomo notas. Faço apontamentos. Tento não ser intrusiva. No entanto, quando a nova versão regressa às minhas mãos, sinto que se perdeu a alma do texto. Que a voz, já não é a voz inicial - íntima, de partilha, quase envergonhada de tal exercício de exposição pessoal. É agora uma voz mais segura, mais monótona, segura de si… como quem lentamente se aproxima da meta. Fico magoada. Não com a nova voz que se apresenta tão segura. Mas pela destruição daquela insegurança que deixava assim antever  uma partilha bem mais profunda e desconhecida.

A história que é recontada continuamente sofre mutações que nem mesmo assim lhe confere um aspecto mais ou menos verídico, ou mais ou menos íntimo. A história que é recontada é por isso uma nova configuração em função do ouvinte, daquele que quer fazer dessa história um pouco sua também. A voz que antecede a voz que nos conta agora a história pode então surgir com uma entoação até então não esperada. E assim, aquele que conta e partilha, ganha uma nova formação física, uma dinâmica desconhecida.

A história do Parati tem tantas versões quantas o número de vezes que é contada. Porque o ouvinte nem sempre está preparado para a sequência real dos acontecimentos, nem sempre está na posição de entender a partilha daqueles dias que foram em si tão longos e inesperados. Tudo se passou a níveis de intensidade não esperados, como um culminar exagerado, de quem se aproxima do final. As respostas teriam que surgir ‘agora’, naqueles últimos dias, antes do regresso a casa. O regresso impediria um possível retorno. O dia de partida, era também em si o dia final. O último.

A casa do rio será sempre o local da acção, das noites longas, do Xolim, do cheiro a peixe ao final do dia, das novas companheiras de quarto, da sua partida, e do chegar de novas caras, e do regresso a casa depois de noites quentes. E o cruzamento da minha história com a de H., alterou não só o tom da voz com que conto a história desses dias, como também trouxe para o esquecimento a existência de outras personagens. Algumas ainda persistem na história inicial. Aquela que ficou no papel.

Posted by The Assemblagist at 15:35:56
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