Parati

Photo by Philippe Leclerc 2007.
1. As imagens têm inevitavelmente histórias que contam ou inventam, histórias que deixam criar porque poderia mesmo ter sido assim. A criatividade das imagens não está presente apenas nos espaços que deixam em branco, como também está nas entrelinhas que não sabemos ler ou que nem por isso nos interessam. Na verdade, esta é uma foto tirada aquando os primeiros raios solares no mês de Junho de 2007. A luz estava magnífica como só a luz da manhã pode ser. E este foi o cão que me acompanhou pelos meus passeios pela cidade durante a minha estada. No entanto, o meu gostar por esta imagem é tão mais complexo!
2. A Eva contou a sua história em tantas partes que se entrelaçaram e intercomunicaram que nunca cheguei a perceber aonde acabou o que ela realmente experienciou, e onde começou a ficção, porque essa sim, era o que eu queria ouvir. O seu conto quase se aproximou do fantástico. Parou-me a respiração por instantes. E no entanto, eu sempre soube que talvez, o estranho gigante que a cobria por completo com o seu corpo enquanto baratas corriam ao longo duma das paredes do quarto fosse um exagero completo - que me preenchia os espaços em branco com imagens das quais eu não sabia se havia de rir ou chorar.
3. A cumplicidade natural e espontânea nunca poderá ser explicada. No entanto, a sua perda, ou mesmo a sua ausência criará em nós sempre esta necessidade de partilhar em voz alta - o quanto é difícil de construír aquilo que já lá não estava anteriormente. O potencial tem já uma existência prévia à sua materialização. O horizonte da baía do Parati ficou-me gravado na memória, não enquanto imagem, mas enquanto existência. Este foi o período mais importante da viagem - aquele em que se decidia, como uma decisão consciente e que antecede a partida, aonde começa a ficção dum experienciar que por vezes pode levar tantos meses até ser partilhado.