Sunday, March 29, 2009

As traseiras

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Criados brancos

1. Criados brancos de cabelo bem apertado na nuca, que se vestem de fardas pretas e cinzentas com aventais brancos que foram outrora expostos a longas horas de luz solar. São tesos. Rígidos da sua secura. Criados invisiveís que estão à porta das casas, que nos deixam entrar, que tentam sorrir num olhar duro, de quem nos condena todas as opções, todas as escolhas, todas as acomodações duma existência rídicula - que eu diria quase sem sal. Sem pimenta. O olhar é ainda mais duro - como pudeste tu, sim tu, deixares derrotar-te de forma tão fácil? - As lágrimas parecem prestes a descer, os olhos brilham de tristeza: a mágoa dos pais que lutaram por uma liberdade que nunca soubemos apreciar. A luta dos outros é sempre tão fácil de desprezar.
Criados brancos que outrora pensaram que um dia o mundo seria seu, que o carro seria maior, que a porta da casa daria para um jardim de relva verde e um balouço nas traseiras. Os cabelos são perfeitos, parte de uma imagem polida, esbranquiçada, monótona. Criados brancos apáticos que nos abrem a porta, que trazem café quase do dia anterior, e nos seus gestos cuidados, mas nem menos assim, de menor revolta nos dizem novamente - como pudeste tu, sim tu, nunca escrever em letras grandes nas páginas principais da tua vida esta vergonha? o silêncio de quem lutou uma vida toda para agora sobreviver assim? como pudeste tu? - O olhar é frio, a ausência do calor humano é notória, as mágoas da vida repreendem-nos. 
Criados brancos em tons cinzentos e pretos, que estão gastos, mas mesmo assim sobrevivem. Aguentam. Esperam. - como pudeste tu não honrar a minha luta e deixares-me assim, aqui, no esquecimento? como pudeste tu pensar que o caminho percorrido nada te tem a ensinar a ti, que vives dos louros das lutas de outrora? - O olhar é reprovador. Sempre. Mas a espera , essa, é paciente. Olhos de raiva que tanto se aproximam da paixão dos dias de marcha na rua e cânticos revolucionários.

2. Dizem-nos que a luta armada nada alcança. Crescemos assim. E contra isso, pouco podem fazer os criados brancos. Há muito que esquecemos que o carro maior, o jardim com o baloiço nas traseiras era parte de um sonho maior, duma vizinhança humana, duma troca de conversa em vãos de escada e portadas de madeira. Há muito que foi apagado essa parte do sonho. O que temos agora perante nós é apenas uma ilusão do que poderia ter sido e nunca foi. E quanto a isso… poucos olhares frios terão a força para fazer a mudança, para trazer à rua um confratimento maior. A luta armada de cânticos revolucionários não é um mal maior para relembrar o esquecimento. - é um bem necessário - dizem-me, todos os dias.

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Wednesday, March 25, 2009

Quarta

Poderia dizer que foi numa Quarta. Que tudo mudou. Que o silêncio da noite é sempre o mais assustador nas horas de solidão. Poderia até dizer que a solidão tem mesmo o seu lado de sedução. Que as palavras são sempre tão limitadoras, mesmo quando nos calha a nós o dom da sua partilha. Que há coisas que se fossem ditas fariam de nós loucos.

Mas não. Nada disto me interessa dizer. Escrever. Hoje, a única coisa que me atormenta são aquelas pessoas que conseguem ler mais fundo. Que nos percebem sem palavras. Que de alguma forma conseguem perceber qual foi o caminho que seguimos até aqui - e que lá no fundo, seguiremos daqui para a frente. Pessoas que queremos aqui, e ao mesmo tempo ali. Que gostamos e odiamos. Porque na verdade, gostam de nós por gostar. Porque compreedem a unidade. O todo. Não temos para estas pessoas dias bons ou dias maus… temos apenas os nossos dias, em que somos simplesmente nós. Como todos os dias.

Digo a alguém que tenho saudades de P.. Porquê? Sei e não sei. Tento explicar. Não dá. As sombras que estas pessoas fazem nas nossas vidas são sempre mais profundas do que o transparecemos. Invadem o espaço circundante, vão mais fundo, encadeiam o que tocam. Li noutro o final do meu diário de viagem. Voltei a lembrar. A recordar. Tem momentos em que o abraço de despedida é tão vazio. Porque a partida, a despedida não pode existir ali. O que existe naquele instante é uma temporalidade que tem dias em que se parece extender eternamente. Tenho saudades. E hoje é quarta. Simplesmente.

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Sunday, March 22, 2009

Parati II

Edito a história de alguém. Tomo notas. Faço apontamentos. Tento não ser intrusiva. No entanto, quando a nova versão regressa às minhas mãos, sinto que se perdeu a alma do texto. Que a voz, já não é a voz inicial - íntima, de partilha, quase envergonhada de tal exercício de exposição pessoal. É agora uma voz mais segura, mais monótona, segura de si… como quem lentamente se aproxima da meta. Fico magoada. Não com a nova voz que se apresenta tão segura. Mas pela destruição daquela insegurança que deixava assim antever  uma partilha bem mais profunda e desconhecida.

A história que é recontada continuamente sofre mutações que nem mesmo assim lhe confere um aspecto mais ou menos verídico, ou mais ou menos íntimo. A história que é recontada é por isso uma nova configuração em função do ouvinte, daquele que quer fazer dessa história um pouco sua também. A voz que antecede a voz que nos conta agora a história pode então surgir com uma entoação até então não esperada. E assim, aquele que conta e partilha, ganha uma nova formação física, uma dinâmica desconhecida.

A história do Parati tem tantas versões quantas o número de vezes que é contada. Porque o ouvinte nem sempre está preparado para a sequência real dos acontecimentos, nem sempre está na posição de entender a partilha daqueles dias que foram em si tão longos e inesperados. Tudo se passou a níveis de intensidade não esperados, como um culminar exagerado, de quem se aproxima do final. As respostas teriam que surgir ‘agora’, naqueles últimos dias, antes do regresso a casa. O regresso impediria um possível retorno. O dia de partida, era também em si o dia final. O último.

A casa do rio será sempre o local da acção, das noites longas, do Xolim, do cheiro a peixe ao final do dia, das novas companheiras de quarto, da sua partida, e do chegar de novas caras, e do regresso a casa depois de noites quentes. E o cruzamento da minha história com a de H., alterou não só o tom da voz com que conto a história desses dias, como também trouxe para o esquecimento a existência de outras personagens. Algumas ainda persistem na história inicial. Aquela que ficou no papel.

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Saturday, March 21, 2009

Parati

Photo by Philippe Leclerc 2007.

1. As imagens têm inevitavelmente histórias que contam ou inventam, histórias que deixam criar porque poderia mesmo ter sido assim. A criatividade das imagens não está presente apenas nos espaços que deixam em branco, como também está nas entrelinhas que não sabemos ler ou que nem por isso nos interessam. Na verdade, esta é uma foto tirada aquando os primeiros raios solares no mês de Junho de 2007. A luz estava magnífica como só a luz da manhã pode ser. E este foi o cão que me acompanhou pelos meus passeios pela cidade durante a minha estada. No entanto, o meu gostar por esta imagem é tão mais complexo!

2. A Eva contou a sua história em tantas partes que se entrelaçaram e intercomunicaram que nunca cheguei a perceber aonde acabou o que ela realmente experienciou, e onde começou a ficção, porque essa sim, era o que eu queria ouvir. O seu conto quase se aproximou do fantástico. Parou-me a respiração por instantes. E no entanto, eu sempre soube que talvez, o estranho gigante que a cobria por completo com o seu corpo enquanto baratas corriam ao longo duma das paredes do quarto fosse um exagero completo - que me preenchia os espaços em branco com imagens das quais eu não sabia se havia de rir ou chorar.

3. A cumplicidade natural e espontânea nunca poderá ser explicada. No entanto, a sua perda, ou mesmo a sua ausência criará em nós sempre esta necessidade de partilhar em voz alta - o quanto é difícil de construír aquilo que já lá não estava anteriormente. O potencial tem já uma existência prévia à sua materialização. O horizonte da baía do Parati ficou-me gravado na memória, não enquanto imagem, mas enquanto existência. Este foi o período mais importante da viagem - aquele em que se decidia, como uma decisão consciente e que antecede a partida, aonde começa a ficção dum experienciar que por vezes pode levar tantos meses até ser partilhado.

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Tuesday, March 17, 2009

A ligação

Há muito que pensava em como precisava de uma ligação à minha viagem pelo Brasil - como um possível retornar, mesmo ainda que temporário, até lá - para imediatamente regressar aqui. Assim, sem nunca ter percebido muito bem se tal ligação era possível de ser realizada - tenho a visita de um antigo companheiro de viagem. Daqueles que foram breves, que deixaram coisas em aberto, e que de alguma forma, com os quais mantivemos contacto.

A minha lisboa foi partilhada durante uns dias por entre conversas sobre lá e cá, sobre histórias que nos cobrem a vida, sobre aquilo que afinal tínhamos em comum e não sabíamos. Os meus meses no Brasil deram-me muitas coisas boas, desde as histórias que enchem muitas páginas do meu diário de viagem até a encontros especiais que vão para lá do falado. Esta visita inesperada à minha lisboa foi a ligação em que tanto pensava. É como uma regeneração.

Gosto de ligações que trazem risos de cumplicidade, livros novos às nossas vidas, partilhas de música - e mais importante… muitos planos para viagens inesquecíveis, de sonho, para um dia realizar.

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Monday, March 9, 2009

Um dia aqui

Um dia aqui… simplesmente aqui - sem a ânsia do próximo comboio, da hora da partida.

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Sunday, March 8, 2009

Pai

É sobrevaloriazada esta noção de pai biológico, de herança genética que nos liga para a vida, o sangue que nos corre nas veias, o ser pai porque o é. Direitos adquiridos por uma mera ejaculação precoce é e sempre será problemática.

Dizem que ele viu o nascimento do primeiro filho. Parado. No canto da sala. Estagnado. Foi demais. Os seguintes foram consequentemente despejados à porta da maternidade - a porta abriu, a mulher saíu, o carro deu meia volta e desapareceu. Era dia de trabalho. Os outros filhos precisavam de ir para o infantário. Sei lá. Sei lá, tantas vezes na vida que foi assim. O carro virou e desapareceu. O silêncio dos ausentes, daqueles que não presenciam a angústia diária - para um dia nos telefonarem e dizerem. Hoje é Domingo, e ao Domingo eu sou pai. De conversa breve, o ser pai é também em si uma brevidade. O telefone desliga-se. O silêncio dos ausentes novamente. Quantas vezes se grita sem voz. O silêncio dos ausentes é o de maior revolta. Os ausentes que nunca foram escolhidos ou eleitos, que têm o seu lugar numa vida apenas pela sua precocidade, que se eternizam pelo telefonema de Domingo, ou pelo mesmo silêncio de sempre.

Somos assim objectos andantes não identificados na vida de pais de partilhas genéticas sem qualquer prolongamento extra-carnal. As brevidades de Domingo são as menos duras. As mais leves no ânimo desta partilha genética quase casual. A brevidade de Domingo, aquela que antecede o silêncio dos ausentes é a mais suportável pela sua não-visibilidade. Não-partilha. Pela distância eterna, em que ali não se esforça por alterar. Os gritos sem voz são menos frequentes. Menos intensos. No entanto, ser pai precisa de presença física - e esta é sem dúvida a mais dura. A de marcas profundas. A de lágrimas secas, gritos silenciosos, destruição imóvel. A imagem do carro que virou e desapareceu. A imagem da mulher sozinha. Da ausência do homem. No canto. Estagnado. Assustado. É a presença constante desta partilha genética. E naquelas três vezes do ano em que ser pai se prolonga para além dos breves instantes de Domingo a imagem do carro que virou e partiu faz eco na sala, alimenta aquilo que nunca se disse, que não se diz, que se engole a seco. Levanta-se da sala. Diz-se boa noite. 

E digo: até um dia. Quem sabe se um dia. Um dia.  

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Sunday, March 1, 2009

A Casualidade de Des/Encontros

Se existem semanas em que é impossível não escrever - existem outras em que pareço secar. É como sentar na escada da porta e esperar… esperar enquanto o sol desce e volta subir, enquanto as crianças vão e voltam da escola, enquanto as rugas de expressão se vão acentuando nos cantos do nosso rosto com o passar dos anos. Nestas semanas a escrita nunca vem. Ausenta-se. Tem havido semanas que se prolongam por anos. Nesses anos, a escrita é forçada, é seca, é dura, quase de díficil contentamento. É a escrita dos egoístas - daqueles que querem dizer o que para o qual não existem palavras.

Semana seca. Dias de vivência de dias que se retornam em si mesmo. São momentos de quase-quase revolta. Levantem-se as armas - alguém ordena. Faz a tua voz ser ouvida. Mas como tornar audível o que é mudo? Em tempos de agitação há sempre aqueles que desertam. Que se tornam invisíveis. Que se escondem em cantos de pátios interiores. A revolta cresce lá fora, a revolução está quase a acontecer - mas eles não acreditam. Fazem-se cegos. Fazem-se surdos. Tornam-se mudos. Forçam a secagem da sua mesma existência.

Acredito que a expectativa contínua e forçada por um amanhã mais brilhante, de céu mais intenso e de cabelos ao vento pela costa de pôr-do-sol congelado (numa iminência de nunca mais ter fim) - num amanhã de beleza de puro eterno êxtase - é a auto-secagem existencial. Como posso eu ficar contente com o sol que brilha por entre as nuvens de olhar tímido, se eu sei que amanhã pode ser pura extravagância solar?

Assim - tentando um contentar maior por uma timidez solar - imponho a esta semana seca, uma escrita forçada, como quem tenta pelo por prazer da tentativa… com modéstia, sem a expectativa de palavras nobres, de palavras de inspiração sobre-natural (porque essas, na verdade, não existem) e escrevo. Afinal, a lição que esta estada em Lisboa me tem ensinado - é que o amanhã pode nunca chegar. E o hoje, tem uma casualidade bem mais excitante, hilariante, aterradora. Os desencontos contantes com o amanhã esperado à sombreira da porta - levam-nos sempre a outros encontros, quando a timidez solar é saboreada como o pôr-do-sol que nunca mais acaba. Gosto. Gosto muito. Daqui.

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