Sunday, February 15, 2009

Voltar a casa II

1. Ontem queria escrever este mesmo texto. Mas tal não aconteceu. Apenas houve tempo para fazer o upload da foto. - A minha semana foi mesmo assim. O contínuo começar, interromper e reiniciar de acções. Momentos cortados. Interlaçados. Como que se aos poucos esta tapeçaria existencial começasse a ter sentido.

Voltar a casa não tem sido fácil. E eu continuo a sentir tal acção - do abrir da porta, desfazer as malas e acordar pela primeira vez no meu novo quarto - como um momento que ainda não terminou. E na verdade, já lá vão mais de três meses. Mas ainda não sinto este espaço, como o meu espaço - mesmo quando aos poucos vou descobrindo os cantos à casa, vou reencontrando espaços que viveram tão fortemente na minha memória durante todos os anos em que estive fora. E talvez o problema não seja desta nova ‘já conhecida’ casa - mas sim desta falha humana de contínuo projectar no futuro, como se o agora nunca fosse suficiente, como se o instante pudesse terminar abruptamente quando o amanhã já não estiver planeado. 

2. Esta semana, que foi totalmente dedicada a mim… trouxe-me alegrias inesperadas. E tornou o ar da cidade, mais leve. O sol que já não brilhava intensamente há cinco semanas, finalmente regressou - e de repente tenho a sensação de que já tinha esquecido o quão agradável é acordar de manhã com esta luz intensa. Os dentes que há seis anos andava a adiar para os tirar - começaram finalmente a seguir o seu destino - que é definitivamente fora do meu maxilar. E na mesma manhã que regressava do dentista e entrava no quarto com a mala numa mão e o pacote de gelo na outra, encontrei uma encomenda na cama. O envelope gigante vinha de Londres, da Kate. Abri. Encontrei mais outro pacote, que tinha vindo de São Paulo. O coração começou-me a bater mais forte. De repente senti uma felicidade aterradora, mesmo antes de abrir o pacote. - Ali, há minha frente encontrava-se o filme que marcou a minha estadia na Baía: Ó Paí, Ó. O filme que teria ter trazido na mala comigo. O filme do qual os cenários me são tão familiares. O filme cuja banda sonora me leva de volta ao território brasileiro com uma mochila às costas.

3. E Sábado… com a sua leveza de fim-de-semana sem hora de ponta - trouxe-me gaspacho, a cerâmica de Heitor Figueiredo dum mundo chamado ‘Cacos Mágicos na Cabeça Gorda’, e um encontro frente a frente com o rapaz dos olhos cor do mar. Encontros de camadas múltiplas, que se vão esbatendo e atenuando, encontrando entre si elos de ligação. E talvez o voltar a casa esteja aos poucos a tornar-se um ‘estar em casa’.

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Friday, February 13, 2009

Voltar a casa

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Monday, February 9, 2009

Heartburn

Passaram 18 meses. E de repente a mesma música de há 18 meses atrás entra-me pela vida adentro novamente. Sem aviso. Como sempre. Em comum, pouco existe - apenas este momentum de mudança, que ainda não se sabe qual vai ser a decisão final. Um momentum que é como portas abertas, não só para um conjunto que me parece infinito, de potencialidades, assim como de portas abertas a um flashback constante de momentos como este: em que o que vem aí é bem diferente do já conhecido.

Heartburn. É o incómodo de tomar decisões. De fazer escolhas. De dizer não a algo que parecia inicialmente tão promissor. Espalham-se os pontos de concentração. Que se tornam então em dispersão. Numa perdição espaço-temporal.
Heartburn. Nos instantes que antecedem a uma angústia que me consome interiormente, que parece fogo, que se propaga lentamente, mas nem por isso menos intensamente.

Recebi o email da T. hoje. Também ela está assim… dividida entre potencialidades, sabendo que a afirmação de uma é a negação imediata de outra. De que nos valerá a racionalidade em momentos como este? Como é possível validar um percurso enquanto a negação de outro percurso que poderia ser também em si mesmo tão promissor? Como dizer não a uma parte de existência que se quer tão intensamente como o agora? 

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Thursday, February 5, 2009

Lisboa em Janeiro

Há histórias que começam logo tristes - que cujas primeiras linhas já nos apertam a alma, histórias que se sabe que o desenrolar em nada se aparenta feliz, ou alegre ou renovador. Há histórias de vida que parecem só ali estar para nos relembrarem - que a vida podia ser bem diferente. A sua existência só pode por nós ser encarada desta forma. Senão, seria demasiado difícil encarar esta vida a que chamamos vida.

E embora já esteja saturada desta chuva constante de Janeiro - o ano não podia começar da melhor forma. Dias cinzentos, roupas escuras, halls de entrada enlameados… que não nos deixam tirar dos ombros este peso pesado. A mágoa da vida alheia cuja história nós queríamos que apenas existisse para nos relembrar - está ali, com a sua presença contínua.

Há histórias que eram felizes há uns meses e que agora se vêem envoltas nesta neblina que nem S. Sebastião poderia, de certa forma levantar. Esfumar. Atenuar. Lisboa molhada, com chuva de pingos gordos em hora de ponta tem uma melancolia de uma cidade que eu não conhecia. E de repente, enquanto espero que o semáforo mude de cor… sinto-me em Londres, sinto-me anónina, sinto que talvez ainda exista uma hipótese de sobrevivência.

As histórias pesadas acompanham-me. Deixam-me estagnada. Como eu gostaria de as poder partilhar. Apenas sei o quanto elas chocam. A alteração do olhar, da respiração, da postura na cadeira - aquando da sua partilha. E por momentos… quero que esta chuva de Janeiro (mesmo em Fevereiro) se prolongue por várias semanas - que se extenda, até que todos nós possamos encarar de frente, de olhos nos olhos, estas pessoas, cujas vidas perderam a luz.

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