Saturday, January 31, 2009

Em Portugal

Há três meses regressei a Lisboa. E depois de uma noite de neve, chuva e muito frio em Londres, passada a jantar pela última vez em Kingsland Road e a falar das minhas últimas aventuras londrinas a uma antiga companheira de viagem, cheguei carregada a Lisboa. Com muitos livros na bagagem. Nenhumas prendas. E muitos projectos.

E se tem muitos dias em que o ritmo aqui é frustrante, demasiado lento para mim, e que quase dá comigo em doida - tem outros em que existe uma brecha de luz. De calor humano. E de muita gente que realmente quer fazer coisas. E no fundo, foi isso que me trouxe de volta - esta vontade de fazer coisas juntos, que por vezes encontro aqui, e que tão raramente encontrei noutras paragens. Porque as frustrações e as desigualdades criam em si mesmo, uma agitação - que um dia tem que sair cá para fora.

E assim em Portugal, a brecha breve de luz de certos dias - é o suficiente para continuar a acreditar - que existem lugares mais certos do que outros. Mesmo que me deixem constantemente nesta situação de não-balanço. E de não-pertença.

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Monday, January 26, 2009

Primavera (prematura)

Hoje cheira-me e soa-me a Primavera. Prematura, eu sei. Ilusão, eu sei. Mas o cheiro da roupa a secar nos estendais, o chilrear dos pássaros e a luz forte depois de uma semana de chuva são um êxtase para os sentidos. Como poderão estes ignorar, o que para eles mesmos, não passa de uma breve passagem da Primavera em Janeiro?

Sempre sonhei em fazer anos na Primavera. No entanto, o meu aniversário calha no Inverno - e em relação a isso pouco posso fazer. Assim, ano após ano, torço para que no dia 2 de Março, os pássaros cantem, os estendais estejam cheios de roupa e o sol brilhe com muita intensidade… mesmo que o calor seja ainda uma ausência. Porque assim, nesse breve dia, posso fechar os olhos e deixar os meus sentidos dizerem-me que afinal a Primavera já chegou.

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Sunday, January 25, 2009

O livro

Uma semana azul… talvez com um ritmo mais errático. Esteve frio. Eu gosto da sensação de vento gélido a cortar-me o rosto. Da sensação de alívio de quando se fecha a porta de casa. Da corrente de ar que é de repente cortada. E assim, num instante, sente-se o silêncio aqui e o ruído da vida agitada lá fora. Gosto do frio com luz. Das manhãs gélidas, da madeira que estala, dos ombros que se encolhem como se de tartarugas nos tratássemos. Manhãs frias e céu azul aquecem-me os sentidos.

O Inverno com a sua brutalidade, com a sua rispidez - é-nos ao mesmo tempo agradável à introspecção. Está frio. Está um gelo. Hoje não dá mesmo para sair. E assim, a mágoa que em certos dias nos consome vê-se livre da obrigação de sorrisos forçados. A porta está fechada. Cá dentro o silêncio impera. O ritmo é de quase monotomia, de leve aroma a madeira queimada, a vinho tinto que ficou no copo na noite anterior.

E assim, no mesmo Inverno em que perdi a graça da graça - vejo de novo as mesmas personagens que há tanto me habitam e há ainda mais tempo tento ignorar - o escritor é aquele que se vê forçado a escrever, ou então, digo eu, aquele que mais não consegue ter preso em si as personagens que o co-habitam, aquele ao qual o seu desespero leva à partilha destas vidas coincidentes com a sua, que lhe dizem baixinho ao ouvido quando a noite chega - vá lá, é assim tão difícil deixares-me co-existir no exterior dum mundo em que tu imperas?

As imagens tornam-se cada vez mais frequentes, mais visuais, mais complexas. O seu realismo começa a ser tanto que quase me atormenta. Talvez o luto seja mesmo esta existência de vontades e desejos que se agitam e exponenciam em verdadeiros actos de violência visual interior - porque é tão mais difícil deixa-los simplesmente existir. Como será possível não tentar prolongar a existência daqueles que nunca aceitámos que tivessem acreditado que já chegava, que o percurso tinha finalmente chegado ao fim?

O livro da graça tem mãos finas e magras do sofrimento, tem ossos gelados, tem o reflexo da vida que já lá não habita. O livro da graça é o do choro leve e escondido. É aquele acreditar que a vida pode mesmo ser normal quando nos amputam aquilo que faz de nós o que somos - ou éramos. A falta da graça da graça exige a um reconstruir duma existência que agora me parece tão cheia de lacunas e ambiguidades.

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Monday, January 19, 2009

A Inocência da Insónia

Sei que as horas passam quase que lentamente, que se estendem na minha própria perspectiva. Fico acordada. No entanto, o que parece ser o estender de uma noite, é no entretanto, a face inocente desta minha insónia. A intensidade dos dias anteriores fez com que neste primeiro instante de vazio, as imagens passem a uma velocidade alucinante, enquanto eu mesma reflicto sobre este estender da noite.


 

Chove
em Alvito. Nunca esqueço a chuva do Alvito. Ficou marcada. Marca a melancolia das noites longas, das imagens rápidas, do caminhar que leva a um processamento dessa informação. Chove em Alvito. A luz é amarelo tosco. A já não presença da graça continua a marcar este vazio profundo. Compreendo agora a falta de comunicação. A dor/a perda tranca-nos em nós mesmos. A dor/a perda dá-nos quase raiva daqueles que também lá estavam.

 

Mas as imagens hoje são tantas. Tantas quantas as que habitaram o mês passado. Processo tudo. Ou talvez não. O certo, é que hoje a noite é longa, é lenta, é azul aqui e de chuva no Alvito. Sou uma máquina cinemática. Fecho os olhos e tudo acelera. O vazio tenta de forma tão desesperada ser preenchido e explicado. Alguém me disse que a inocência daqueles dias fez com que tanta coisa passasse despercebida. Porque pensamos nós que estaríamos agora melhor preparados para viver o passado? Porque consideramos ter em falta sempre esta capacidade de se calhar o termos vivido ao máximo?

 

Talvez tenha sido a chuva do Alvito o iniciar disto tudo. O certo é que hoje não chove aqui. A companhia é outra. A garrafa de vinho foi também dispensada. E no vazio, eu tenho mesmo só o Bon. Mas haveria alguém melhor do que ele nesta noite de incongruências? Mesmo num futuro recordar do passado?

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Thursday, January 15, 2009

O inesperado

Queríamos histórias inesperadas… eventos que nos apanhassem de surpresa e nos deixassem de boca aberta, paralisados, arrepiados. No entanto, a routina entra - e até que se sente bem leve. Diz-nos quais as expectativas que se preparam para nos confrontar, fala-nos de dias controlados, trás uma calma quase sem explicação. É a presença confortável do desconhecido, do amanhã depois do hoje.

Mas hoje é de dia de chuva. E corre-se mais devagar. O chão escorrega, é preciso protegermo-nos dos guardas-chuva, e há sempre a possibilidade da desculpa do mau tempo. A chuva do inesperado… que nos corta o passo e nos dá possibilidade de pela primeira vez da semana realmente observar aqueles que nos rodeiam, as entradas e as saídas do metro, e experimentar as cores mais brilhantes, mais vivas.

Corre-se mais devagar em dias de chuva. Pára-se mais longamente em dias de chuva. Houve-se mais música em dias de chuva. E o inesperado acontece então. Gosto desta Lisboa molhada, tímida, e quase cinzenta por uns dias. Gosto desta Lisboa que se revela então de forma tão diferente. E que de repente, me dá uma saudade quase infinita de Londres. O inesperado acontece: e hoje, tenho saudades da chuva de Londres.

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Friday, January 9, 2009

A graça da graça

A graça da graça nada tem a ver com a sua graciosidade ou capacidade para despertar em nós os mais belos sentimentos. A graça da graça residia em saber nos reunir a todos, aqueles a quem ela se dedicava tão profundamente, e fazer das nossas paixões a paixão de todos nós. E sabia trazer ao de cima de cada um de nós o dom da partilha – da partilha das nossas histórias e da nossa vida. E talvez assim se explique a minha paixão por histórias. A minha paixão pelos contos da américa latina, com cores fortes e tristezas mais profundas do que o fosso.

Ainda choro a ausência da graça da graça – mas sem lágrimas, sem caminhares sombrios, ou quartos escuros com música que nos faz tremer o coração. Choro a ausência da graça em pequenos momentos dos meus dias – porque ainda não descobri o quão fundo é o fosso da sua ausência, é o vazio deste trazer junto, deste partilhar de vida que tantas vezes soube lá estar. Sem mais nada fazer. Só estar presente.

A graça com que a graça preencheu tantos dias das nossas vidas é agora uma manhã de inverno silenciosa, em que o frio faz estalar os troncos das árvores e os velhotes caminham sozinhos nos passeios de pedras geladas. Hoje é noite de inverno – e eu gosto do frio, do agasalho, da manta que me acompanha de compartimento
em compartimento. Reflecte a minha mágoa de forma tão mais livre. Não tenta trazer cores fortes a este vazio. Porque eu hoje de caminhar nos mesmos passeios gelados das manhãs de inverno do mesmo velhote de bengala. Eu gosto da ausência de informação. De atordoação. A graça da graça sempre esteve mais entranhada nas nossas vidas do que aquilo que deixámos transparecer. E na alma, fica o último apertar de mão. Dos ossos gelados. Da não correspondência. Do desvanecer duma graça.

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Thursday, January 1, 2009

London

Someone fell in love with this photo this week. I thought it might be a good idea to share it then.

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A Quinta que poderia ser Domingo

Hoje é Quinta, mas poderia também ter sido Domingo. A rotina não mudou em muito. Levantei-me tarde. O almoço nem chegou a existir. Fui dar uma volta. Jantei. Tomei banho. E amanhã, bem amanhã é outro dia de trabalho.

Eu tenho algum problema com certas datas do calendário. Principalmente, aquelas em que me é esperado dizer: Sim, o dia está a ser fantástico. Já não me divertia assim à imenso tempo. - E outras coisas assim.
Bom… Eu não funciono muito bem com imposições exteriores. E muito pior com expectativas que em nada estão coordenadas com a minha própria vontade.

Na verdade, eu sei que o princípio do ano é sempre assim. Porque tenho sempre vontade de estar aonde não estou. E a última vez que me lembro de ter estado aonde realmente queria estar nesta data foi há quase dez anos. E depois… há sempre a questão das nossas próprias expectativas de há 12 meses atrás. E as minhas, bem as minhas eram bem melhores do que aquilo que me foi oferecido. E em nada me vou sentir lesada pelo final do ano 2008. Não gostei. Foi longo. Chato. Demasiados eventos para um ano só. E mais do que isso. Deixou-me um sentimento de peso. Algo de super difícil de ser carregado.

Assim… embora os Gato Fedorento tenham decidido ignorar 2009 e saltar logo para 2010… eu pessoalmente, até que estou com vontade de este ano entre a matar. Nem que seja para dizer que é o primeiro que passo em Lisboa depois de muitos anos.

E assim, voltamos ao mesmo assunto. Expectativas. As minhas são de que estes próximos dias passem depressa. Para que o tom das conversas seja alterado. Para que eu me senta verdadeiramente longe de 2008. E para que esta semana de chuva finalmente termine.

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