Uma semana azul… talvez com um ritmo mais errático. Esteve frio. Eu gosto da sensação de vento gélido a cortar-me o rosto. Da sensação de alívio de quando se fecha a porta de casa. Da corrente de ar que é de repente cortada. E assim, num instante, sente-se o silêncio aqui e o ruído da vida agitada lá fora. Gosto do frio com luz. Das manhãs gélidas, da madeira que estala, dos ombros que se encolhem como se de tartarugas nos tratássemos. Manhãs frias e céu azul aquecem-me os sentidos.
O Inverno com a sua brutalidade, com a sua rispidez - é-nos ao mesmo tempo agradável à introspecção. Está frio. Está um gelo. Hoje não dá mesmo para sair. E assim, a mágoa que em certos dias nos consome vê-se livre da obrigação de sorrisos forçados. A porta está fechada. Cá dentro o silêncio impera. O ritmo é de quase monotomia, de leve aroma a madeira queimada, a vinho tinto que ficou no copo na noite anterior.
E assim, no mesmo Inverno em que perdi a graça da graça - vejo de novo as mesmas personagens que há tanto me habitam e há ainda mais tempo tento ignorar - o escritor é aquele que se vê forçado a escrever, ou então, digo eu, aquele que mais não consegue ter preso em si as personagens que o co-habitam, aquele ao qual o seu desespero leva à partilha destas vidas coincidentes com a sua, que lhe dizem baixinho ao ouvido quando a noite chega - vá lá, é assim tão difícil deixares-me co-existir no exterior dum mundo em que tu imperas?
As imagens tornam-se cada vez mais frequentes, mais visuais, mais complexas. O seu realismo começa a ser tanto que quase me atormenta. Talvez o luto seja mesmo esta existência de vontades e desejos que se agitam e exponenciam em verdadeiros actos de violência visual interior - porque é tão mais difícil deixa-los simplesmente existir. Como será possível não tentar prolongar a existência daqueles que nunca aceitámos que tivessem acreditado que já chegava, que o percurso tinha finalmente chegado ao fim?
O livro da graça tem mãos finas e magras do sofrimento, tem ossos gelados, tem o reflexo da vida que já lá não habita. O livro da graça é o do choro leve e escondido. É aquele acreditar que a vida pode mesmo ser normal quando nos amputam aquilo que faz de nós o que somos - ou éramos. A falta da graça da graça exige a um reconstruir duma existência que agora me parece tão cheia de lacunas e ambiguidades.