Oásis da existência
Assim, criam-se oásis de existência, temporários e que tentam permanecer – mas sem nunca deixar de transparecer o seu formato ilusório.
Dizem-me: um escritor que é bom escreve todos os dias. Lê todos os dias. Falam-me de necessidades existenciais que me parecem demasiado ‘regra geral’: a média de algo que não se mede, que não se padece de tal realidade.
O choque da mudança é-me lembrado todos os dias. Quando chego a casa. Quando está silêncio. Quando sei que já falta pouco para o amanhecer. Tenho saudades de Londres. Mas de uma londrina que eu sei que nunca existiu. Que existe aqui – porque tal existência só pode ter mesmo lugar depois da mudança.
Dizem-me: que escrevem apenas por escrever. Porque mais nada sabem fazer. Porque o relato, a partilha, o recriar só acontece assim mesmo… por entre as palavras. Dizem-me que têm saudades da laranjeira, do pintassilgo, e da macieira que cresceu no lugar errado.
A macieira foi finalmente arrancada. Não sei. Talvez a tenham mudado de lugar. Mas a sua existência sempre esteve determinada desde o momento em que desabrochou. Deve ter sido um caroço esquecido. Cresceu perto da janela. Da janela que deixou de abrir. Da janela que não abriu durante mais de dez anos. Ficou a saudade – da sala escura, da macieira encostada à parede. Também da laranjeira e do pintassilgo.
Os oásis da existência – jogos de luzes visuais que nos tornam o existir mais doce – são permanentes. São comuns. Permanecem lá, de certa forma, mesmo depois da mudança. Guardados pela saudade.