Tuesday, December 2, 2008

A “Ética da esperança” de José Gil

A ética da esperança não é um optimismo, quer dizer uma atitude perante a vida. É a própria vida livre desejando mais vida e fazendo tudo para a libertar. Varrendo optimismo e pessimismo e coexistindo com a consciência mais aguda do horror do mal. Ética de uma afectividade luminosa, criadora, que assume o mal do mundo – amor fati – e, por isso, ama intensamente a vida.

em Visão pp.36, 27/11/2008.

Uns sobrevivem/convivem/existem enquanto realidade através da sua mesma ignorância, outros do sarcasmo, outros fazem mesmo parte do ínfimo grupo que acredita que tudo está no caminho certo, de que esta é a única forma possível de existência, ou de que então, é tudo uma questão de fado. De destino. Existem ainda, aqueles para os quais o fazer parte de um grupo significa a razão perene do seu líder ou criador. Eu pessoalmente, gosto do meu viver enquanto realidade através dos ensaios do José Gil.
Não porque estão certos ou errados, não porque aparecem semanalmente nos nossos telejornais. Apenas porque exigem a sua leitura repetida. A segunda leitura abre-me sempre as portas daquilo que a primeira não deixou transparecer, e finalmente à terceira tudo começa a fazer um pouco mais de sentido. Porque levanta questões. Porque abre portas. E principalmente, porque vez após vez, encontro aplicado na sua escrita teorias contemporâneas que tendo a encontrar apenas no mundo académico. Bem longe da existência enquanto realidade. Bem longe to ‘Yes, we can’ do Obama e dos seus seguidores.

E assim, ele escreve que a ética da esperança ‘é a própria vida livre desejando mais vida e fazendo tudo para a libertar’, assim referindo-se, entendo eu, à potencialidade; a um constante realizar duma potencialidade que não se elimina ou atinge um fim – a uma potencialidade em constante renovação, alteração ou recriação. A uma energia que nos dá uma sensação de definição, que nos sugere uma capacidade para alcançar o infinito (enquanto definição do não visível ou previsível ainda). Uma potencialidade que enquanto alimento do actual é em si mesmo constantemente ultrapassada – porque o reconhecimento e a aceitação não é o fim (ou o objectivo), mas o início de um novo e contínuo percurso de multiplicidades – onde a minha projecção do hoje é já em si mesmo o resultado de um conjunto de projecções múltiplas e coexistentes dum potencial amanhã.   

Posted by The Assemblagist in 18:17:20 | Permalink | No Comments »

Histórias

Contamos histórias. Falamos de coisas que se passaram. Entretemos olhares arregalados. Bocas abertas. Com vivências exóticas. Do além. Tão longe daquilo em que coabitamos. Mas na verdade, também somos nós, seres agora, bem longínquos daqueles dias. Das tardes solarentas. Dos vizinhos que nos invadiam o jardim, de oliveiras e pedras, enormes. Na verdade, também aquelas histórias são para nós de vivências exóticas bem longe daquilo que consideramos parte da nossa existência quotidiana.

E na verdade também… é bem melhor assim. Histórias. Recordações. Partilhas. Todas estas que eu faço duma vida bem distante escondem entre si tudo aquilo que não sou ou que pretendo não ser. Tudo aquilo que não é para ser partilhado. Cresci. E hoje digo que não gosto das montanhas. Do frio gélido da manhã. Do som do latir dos cães em noites quentes de Verão. Do leite fresco. Do vendedor ambulante. Cresci. E hoje o “não-regresso” é definitivo.

Conto histórias. Falo de coisas que talvez se tivessem passado. Entretenho olhares curiosos. Rostos atentos. E de repente… lembro-me se certas belezas. Por instantes, as sombras, os lugares obscuros e a visão das montanhas longínquas cobertas de neve invade-me. E tenho saudades. Breves. Daquilo que eu gostava que tivesse sido. Mas que na verdade nunca foi.

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