Sunday, December 28, 2008

A lua está longe…

A lua está longe e mesmo assim – a escuridão da noite não alivia esta mágoa profunda do vazio que me deixaste. E se tem dias que passam de forma leve, noutros dias – quase que tenho raiva de ti, por não teres ficado mais tempo, por não teres tentado mais, por transpareceres de forma tão clara como a tua hora estava tão perto.

 

E mesmo com a lua longe sinto a tua falta. E sei que talvez assim o seja por longos dias. E imagino aqueles que sentem a casa vazia da tua presença, das tuas visitas, dos teus chás, do teu viver. Mas a mágoa dos outros não é alívio para a minha.

 

Gostava que estivesses aqui. Apenas. Por um pouco mais. Mesmo sabendo que a marca da tua mão gelada ficou cravada na alma. Sempre. Tem momentos que são assim. O meu adeus. Eu sei.

 

A lua está longe e mesmo assim oiço a tua voz já fraca. E fico
em silêncio. Ainda não tive coragem de voltar a casa. Um dia. Tu sabes.

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Thursday, December 25, 2008

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Monday, December 22, 2008

G.

A espera nem sempre é o suficiente para evitar a surpresa. E depois do alterar não há mais um possível retorno. A porta fecha-se e quando é, um dia, aberta novamente - toda a emoção daquele momento é de novo revivida. E as lágrimas correm-me pelo rosto. Fazer-me de forte nem sempre é o meu forte.

‘O que é a vida se temos que chegar a este ponto?’ - perguntam-me no fim da cerimónia. Eu não tenho palavras. Estou em choque. Talvez devesse dizer que é verdade - que isto não é vida, que já era demasiado sofrimento, que a nossa essência é algo muito para além da materialidade do corpo, que este fim desfigurado não representa de forma alguma o processo de um terminar assim. No entanto, não respondo. Estou em choque, é verdade. Alguém vira costas e chora finalmente. A angústia daqueles que cresceram a esconder as emoções é bem maior do que a minha.

Até gostava de poder explicar o vazio que me preenche. A dificuldade de não poder estar só. A angústia de saber que quando a porta abrir tudo mudou. O som. O ritmo. O cheiro. Há pessoas que nos preenchem a vida. A existência. E eu fiquei um pouco mais só. É verdade.

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Sunday, December 14, 2008

O ontem que trouxe de volta tantos outros dias

Talvez haja um momento certo para escrever certas palavras, para fazer certas inscrições, para deixar a marca mais próxima da perfeição. Mas o momento certo tem que por vezes ser adiado - estagnado no tempo numa prolongação de segundos angustiante - e então quase um dia depois, escreve-se e… respira-se.

Respira-se - porque se chega a um momento em que a partilha é mesmo um viver. A existência que reserva a sua essência na partilha. E no prolongamento do ontem que trouxe de volta tantos outros dias. E talvez porque o ontem foi especial, este texto devia ter sido entitulado ‘Alice.’. Mas ‘Alice.’ reduziria em muito o ontem. Diminuiria o prolongamento angustiante dos segundos de ontem que finalmente poderam existir hoje. ‘Alice.’ teria que ter sido só sobre a Alice, teria mantido a luz no palco de onde a projecção da voz da loira falsa mais encantadora do sul de Inglaterra me deixa paralizada, quase de lágrimas nos olhos. Talvez por isso mesmo nunca me canse de a ver ao vivo - Alice Russell.

Mas novamente, sem grandes rodeios - o ontem que trouxe de volta tantos outros dias - deixou-me acordada até tarde, deixou-me o coração cheio de alegria. E lembrou-me que as raízes, aquilo que nos prende a cada lugar, constrói-se num dia de cada vez. E agora que a Alice me visitou em Lisboa, já não posso dizer que a Alice enquanto Alice só mesmo existir em Bristol - porque os lugares aos poucos vão-se roubando entre si, criando fronteiras mais leves, e um dia - um dia como ontem - percebemos finalmente - que não são os lugares que nos fazem, mas sim nós que fazemos os lugares.

E Lisboa, é agora também um pouco de Bristol, tal como já era um pouco de Londres. E por momentos eu podia ter estado em Listol… Brisboa… sei lá. Por momentos o ontem que trouxe de volta tantos outros dias foi em si mesmo um pouco de todos esses mesmos dias. E quando os olhos da Alice brilharam eu podia ter estado na Tekla, aonde a vi pela primeira vez com os Quantic, ou no Fiddlers, ou então, porque não mesmo num dos raros dias quentes de Verão em Ashton Court. Mas não. Porque há coisas que são em si mesmo únicas.

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Wednesday, December 10, 2008

Momentos de hesitação fazem transitar o mundo para outros estados para os quais não se estava preparado. Momentos de hesitação prolongam a angústia daquilo que exigia ser de menor duração. Mas o parar trás consigo também a oportunidade de se ter em consideração o que nunca havia sido considerado anteriormente.

Assim, nos preparamos para novos estádios, cujas iniciações são prolongadas e quase dolorosas por vezes. Iniciações que sabemos necessárias, que não se questionam - porque há percursos que se devem percorrer. Quase sempre.

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Monday, December 8, 2008

Oásis da existência

Ainda que se queira apaziguar o choque de uma mudança – a mudança, essa, tem sempre lugar e está presente naquele instante de vivência que se segue a essa mesma mudança. É difícil esquecer-se dela. É difícil deixar existir sem que seja evocada.
Assim, criam-se oásis de existência, temporários e que tentam permanecer – mas sem nunca deixar de transparecer o seu formato ilusório.

Dizem-me: um escritor que é bom escreve todos os dias. Lê todos os dias. Falam-me de necessidades existenciais que me parecem demasiado ‘regra geral’: a média de algo que não se mede, que não se padece de tal realidade.

O choque da mudança é-me lembrado todos os dias. Quando chego a casa. Quando está silêncio. Quando sei que já falta pouco para o amanhecer. Tenho saudades de Londres. Mas de uma londrina que eu sei que nunca existiu. Que existe aqui – porque tal existência só pode ter mesmo lugar depois da mudança.

Dizem-me: que escrevem apenas por escrever. Porque mais nada sabem fazer. Porque o relato, a partilha, o recriar só acontece assim mesmo… por entre as palavras. Dizem-me que têm saudades da laranjeira, do pintassilgo, e da macieira que cresceu no lugar errado.

A macieira foi finalmente arrancada. Não sei. Talvez a tenham mudado de lugar. Mas a sua existência sempre esteve determinada desde o momento em que desabrochou. Deve ter sido um caroço esquecido. Cresceu perto da janela. Da janela que deixou de abrir. Da janela que não abriu durante mais de dez anos. Ficou a saudade – da sala escura, da macieira encostada à parede. Também da laranjeira e do pintassilgo.

Os oásis da existência – jogos de luzes visuais que nos tornam o existir mais doce – são permanentes. São comuns. Permanecem lá, de certa forma, mesmo depois da mudança. Guardados pela saudade.

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Tuesday, December 2, 2008

A “Ética da esperança” de José Gil

A ética da esperança não é um optimismo, quer dizer uma atitude perante a vida. É a própria vida livre desejando mais vida e fazendo tudo para a libertar. Varrendo optimismo e pessimismo e coexistindo com a consciência mais aguda do horror do mal. Ética de uma afectividade luminosa, criadora, que assume o mal do mundo – amor fati – e, por isso, ama intensamente a vida.

em Visão pp.36, 27/11/2008.

Uns sobrevivem/convivem/existem enquanto realidade através da sua mesma ignorância, outros do sarcasmo, outros fazem mesmo parte do ínfimo grupo que acredita que tudo está no caminho certo, de que esta é a única forma possível de existência, ou de que então, é tudo uma questão de fado. De destino. Existem ainda, aqueles para os quais o fazer parte de um grupo significa a razão perene do seu líder ou criador. Eu pessoalmente, gosto do meu viver enquanto realidade através dos ensaios do José Gil.
Não porque estão certos ou errados, não porque aparecem semanalmente nos nossos telejornais. Apenas porque exigem a sua leitura repetida. A segunda leitura abre-me sempre as portas daquilo que a primeira não deixou transparecer, e finalmente à terceira tudo começa a fazer um pouco mais de sentido. Porque levanta questões. Porque abre portas. E principalmente, porque vez após vez, encontro aplicado na sua escrita teorias contemporâneas que tendo a encontrar apenas no mundo académico. Bem longe da existência enquanto realidade. Bem longe to ‘Yes, we can’ do Obama e dos seus seguidores.

E assim, ele escreve que a ética da esperança ‘é a própria vida livre desejando mais vida e fazendo tudo para a libertar’, assim referindo-se, entendo eu, à potencialidade; a um constante realizar duma potencialidade que não se elimina ou atinge um fim – a uma potencialidade em constante renovação, alteração ou recriação. A uma energia que nos dá uma sensação de definição, que nos sugere uma capacidade para alcançar o infinito (enquanto definição do não visível ou previsível ainda). Uma potencialidade que enquanto alimento do actual é em si mesmo constantemente ultrapassada – porque o reconhecimento e a aceitação não é o fim (ou o objectivo), mas o início de um novo e contínuo percurso de multiplicidades – onde a minha projecção do hoje é já em si mesmo o resultado de um conjunto de projecções múltiplas e coexistentes dum potencial amanhã.   

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Histórias

Contamos histórias. Falamos de coisas que se passaram. Entretemos olhares arregalados. Bocas abertas. Com vivências exóticas. Do além. Tão longe daquilo em que coabitamos. Mas na verdade, também somos nós, seres agora, bem longínquos daqueles dias. Das tardes solarentas. Dos vizinhos que nos invadiam o jardim, de oliveiras e pedras, enormes. Na verdade, também aquelas histórias são para nós de vivências exóticas bem longe daquilo que consideramos parte da nossa existência quotidiana.

E na verdade também… é bem melhor assim. Histórias. Recordações. Partilhas. Todas estas que eu faço duma vida bem distante escondem entre si tudo aquilo que não sou ou que pretendo não ser. Tudo aquilo que não é para ser partilhado. Cresci. E hoje digo que não gosto das montanhas. Do frio gélido da manhã. Do som do latir dos cães em noites quentes de Verão. Do leite fresco. Do vendedor ambulante. Cresci. E hoje o “não-regresso” é definitivo.

Conto histórias. Falo de coisas que talvez se tivessem passado. Entretenho olhares curiosos. Rostos atentos. E de repente… lembro-me se certas belezas. Por instantes, as sombras, os lugares obscuros e a visão das montanhas longínquas cobertas de neve invade-me. E tenho saudades. Breves. Daquilo que eu gostava que tivesse sido. Mas que na verdade nunca foi.

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