Monday, August 18, 2008

Para a Cientista,

São poucas a vezes em que aqui escrevo com alguém especial em mente. Mas este é especialmente para ti – por todos aqueles momentos em parecemos em sintonia. E há instantes, tive um daqueles momentos únicos na vida, em que ao cuscar o teu blog me apercebi como havias escrito aquilo que me passava por entre as mãos nesse mesmo momento.

E assim, de mim para ti – também eu questiono como vão e vêm certas pessoas da nossa vida, quais os critérios de tais cruzamentos, e se tudo tem uma lógica, qual a lógica por trás de tantos dos cruzamentos que tive nos últimos doze meses.

Dentro de três semanas, tudo será diferente – e cerca de 80% das pessoas que conheço nesta cidade terão voltado a casa. Eu, obstinada, ficarei mais dois meses. Talvez em busca duma melancolia doce que nunca encontrei em Londres. Talvez em busca daquele atravessar do rio que aperta o coração. Talvez em busca de momentos em que a ideia de sair daqui pareça demasiado dolorosa.

Na mesa, o café que devia ser rápido, prolonga-se por horas. A companhia muda, o tom da conversa atinge diferentes timbres, o bater do ritmo cardíaco é também esse irregular. Sensações de quem já conhece os seus arredores, de quem já conhece os clientes habituais, de quem já tem as suas próprias rotinas – e sabe, que o café do Domingo de manhã (já de tarde), é sempre longo.

E no entanto, aquela pergunta habitual, de quem já carrega a casa às costas há muitos anos começa a surgir – como será? quem permanecerá? será manter o contacto assim tão difícil? – mesmo sabendo, que para estas coisas não há mesmo regras definidas. A distância altera a dinâmica, e aproxima-nos de uns e cria fossos com outros. E as estradas que pareciam tão definitivamente conjuntas, paralelas, próximas – afastam-se – mas sempre com a possibilidade de um dia se cruzarem novamente.

E continuo à espera do dia em que no terminal do aeroporto dum ponto distante, um cruzar de olhar nos leve a histórias bem longínquas, ou pequenas melodias conjuntas, ou anotações que nunca foram partilhadas. E continuo à espera que um dia certos caminhos se cruzem novamente. Porque há sempre um esperar. Contínuo. Mesmo que silenciado.

Posted by The Assemblagist at 11:19:44 | Permalink | Comments (1) »

Friday, August 15, 2008

Escrever enquanto processo criativo…

Alguém me dizia ontem, num email, que escrever, neste caso escrever uma tese de mestrado, deve ser um processo de gosto, de prazer, de soborear. Isto, assumindo que todo o processo criativo é um deitar cá para fora do que estava preso, o que sufocava, o que tinha a qualquer custo ser partilhado. Mas escrever enquanto processo criativo nunca garantiu a ninguém um processo de puro prazer, ou mesmo extâse. Porque mesmo quando o que se faz, é puramente um partilhar, quase que numa tom de diário, esse mesmo partilhar em nenhum momento é garantido ser fácil ou natural.

Escrever é-me muitas vezes doloroso… sombrio… penoso… seja ela uma escrita criativa ou não, mais ou menos académica, resultado de maior ou menor expectativa. Mas esse mesmo processo enquanto escrita, é-me saudável - porque em todas as suas formas é uma forma de comunicação, mais um instrumento de comunicação com o outro, que tenho ao meu dispor e do qual abuso, do qual tento explorar todas as suas facetas, no qual encontro uma forma de comunicação que se adequa melhor a certos instantes.

Posted by The Assemblagist at 22:19:05 | Permalink | No Comments »

Entre o ser vítima ou sobrevivente…

Existem semanas que quase seria mais fácil deixá-las passar em branco. Em que os acontecimentos são momentos caóticos de hiper-estímulos e de díficil processamento. Em que quase seria mais fácil de encontrar uma linha linear de narrativa se eu fosse mesmo um mero sistema operativo.

Ontem alguém me perguntou: What are you about? A conversa desenrolou um pouco aos tropeções para nova pergunta: What are you about? Who are you? Em momentos destes quase desejo em que tudo se perca na tradução, porque estar perdido entre dois métodos distintos de comunicação pode levar a desentendimentos linguísticos - até aí eu percebo. Mas a pergunta de quem eu sou, ou quais os meus obejectivos enquanto ser, é uma pergunta que eu pessoalmente não tenho por onde lhe pegar.

Como explicar a alguém que a minha semana de acontecimentos inesperados, caóticos, e em quantidade inusitada - teria sido melhor superada se eu não fosse um ser complexo, que desde a minha pele aos meus orgãos interiores, tudo reage, até a um certo ponto, a estímulos exteriores. E que a informação resultante destes mesmos estímulos nem sempre é a que eu esperava. Como explicar a alguém, que enquanto ser humano, se tiver que ser mesmo comparado a um sistema de processamento com objectivos claros, então sou um sistema sob constante efeito de ‘hacking’, ‘noise’, ‘virus’ - cujo complexidade caótica dá origem a respostas bem diferentes, em momentos diferentes, sobre quem eu sou ou quais os meus objectivos enquanto ser.

Na verdade, a minha semana foi preenchida com uma simples pergunta:

- Qual é o momento em que deixamos de ser vítimas para nos tornármos sobreviventes? 

Enquanto vítima, a atenção é focada na acção negativa exercida sobre tal corpo. Ser vítima de um acidente de carro, ser vítima de violência familiar, ser vítima da vida. Enquanto ser, é-se vítima de acção de terceiros. Há uma estagnação no outro, no exterior, daquilo que fugiu ao nosso controle. Mas enquanto sobrevivente, a atenção está em nós mesmos. A acção negativa foi superada, é reconhecida, mas ultrapassada. Porque a vida continua, e embora a marca fique sempre lá, lidar com a situação na primeira pessoa exige um prosseguir.

E prosseguir nem sempre é linear. E talvez por isso, perguntas como - Que tal foi o teu dia? - nos levem sempre mais longe do que - Who are you?

Posted by The Assemblagist at 17:36:41 | Permalink | Comments (1) »

Friday, August 1, 2008

Amanhã é só mais outro dia.

As celebrações nem sempre são públicas. Por vezes celebra-se sozinho. Com o espírito em alta. Com um sorriso. Com uma lágrima. Hoje disseram-me: é tempo de celebrar, nunca o deixes de fazer. vale a pena - sempre celebrar aqueles caminhos percorridos que nem sempre foram partilhados. E assim, hoje quero celebrar. Mas a alegria de tanta celebração trás-me uma lágrima.
A coexistência de ciclos múltiplos na nossa vida quotidiana é por vezes, tão difícil de ser aceite, ou mesmo partilhada. Os ciclos visíveis, aqueles que todos em redor conseguem ver e reconhecer, ofuscam outros ciclos, menores, que talvez nos façam passar noites em claro, que talvez tragam consigo celebrações solitárias de lágrima no olhar. Porque há ciclos que não se querem partilhados, que se querem anónimos, que se querem terminados sem resíduos de tal existência. Porque existem ciclos que se querem confinados a quatro paredes, a uma caixa, a uma carta. Há partilhas que nunca serão feitas a mais ninguém. A vulnerabilidade de tal exposição é demasiado dura… Uma desvalorização de tudo o resto conquistado…

E assim… saber que amanhã é só mais outro dia, é quase confortante. Como uma voz doce diz… ‘tomorrow is just another day, when I let the sunshine meet my conscience.’ E amanhã talvez outro ciclo tomará o lugar deste mesmo ciclo que termina hoje… e que me deixa uma lágrima no olhar.

Posted by The Assemblagist at 14:38:26 | Permalink | No Comments »