Para a Cientista,
E assim, de mim para ti – também eu questiono como vão e vêm certas pessoas da nossa vida, quais os critérios de tais cruzamentos, e se tudo tem uma lógica, qual a lógica por trás de tantos dos cruzamentos que tive nos últimos doze meses.
Dentro de três semanas, tudo será diferente – e cerca de 80% das pessoas que conheço nesta cidade terão voltado a casa. Eu, obstinada, ficarei mais dois meses. Talvez em busca duma melancolia doce que nunca encontrei em Londres. Talvez em busca daquele atravessar do rio que aperta o coração. Talvez em busca de momentos em que a ideia de sair daqui pareça demasiado dolorosa.
Na mesa, o café que devia ser rápido, prolonga-se por horas. A companhia muda, o tom da conversa atinge diferentes timbres, o bater do ritmo cardíaco é também esse irregular. Sensações de quem já conhece os seus arredores, de quem já conhece os clientes habituais, de quem já tem as suas próprias rotinas – e sabe, que o café do Domingo de manhã (já de tarde), é sempre longo.
E no entanto, aquela pergunta habitual, de quem já carrega a casa às costas há muitos anos começa a surgir – como será? quem permanecerá? será manter o contacto assim tão difícil? – mesmo sabendo, que para estas coisas não há mesmo regras definidas. A distância altera a dinâmica, e aproxima-nos de uns e cria fossos com outros. E as estradas que pareciam tão definitivamente conjuntas, paralelas, próximas – afastam-se – mas sempre com a possibilidade de um dia se cruzarem novamente.
E continuo à espera do dia em que no terminal do aeroporto dum ponto distante, um cruzar de olhar nos leve a histórias bem longínquas, ou pequenas melodias conjuntas, ou anotações que nunca foram partilhadas. E continuo à espera que um dia certos caminhos se cruzem novamente. Porque há sempre um esperar. Contínuo. Mesmo que silenciado.