Monday, July 28, 2008

Life is about a dream!

Depois de muitas expectativas falhadas, ruas que se tornam becos sem saída, e muitas noites escuras que se pareciam eternizar – já não há forma de se escapar a um falhanço espectacular, diz o Jack. Um falhanço espectacular de momentos em que uma volta em U se realiza, em que há um retornar ao princípio do princípio para se dar finalmente o falhanço espectacular de anulação de todos os outros falhanços.

Os sonhos que parecem sonhos… mandam-nos ficar, ir esperando pelo dia em que o falhanço se torna o falhanço dos falhanços. E assim, a volta a casa vai sendo adiada ano após ano. O tomar da decisão definitiva que vai pôr o sorriso derradeiro nos lábios vai ficando na prateleira. Life is about a dream… O mesmo sonho que impede tal sonho de se concretizar.

Criamos a prisão. As paredes que nos impedem de avançar. Porque a concentração está demasiado no ‘ainda para vir’. E o medo de ‘life is about a dream’ desaparecer é quase impossível de se lidar.

Conto as folhas que vão planando no parque em dias de Outono. Conto o número de pontes e imagino todos os outros túneis que cruzam o rio. Conto o número de bicicletas com ciclistas de saia. Conto. Porque os números parecem ser a única forma de manter o contacto com este espaço que em breve pretendo abandonar.

‘Life is about a dream’… e eu cansei-me de esperar por ele. Porque quem sabe, se ele não está à minha espera noutra estação. Assim, há meses que empacoto as malas. Que cancelo contractos. Que digo adeus prematuramente. E preparo finalmente, o momento do falhanço espectacular, da volta em U, do regressar ao princípio dos princípios.

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Tuesday, July 22, 2008

Fazer Melhor

O dia amanhece - quase sempre carregado de decisões de noites anteriores: fazer melhor, tentar melhor, exigir melhor. O dia amanhece carregado de expectativas que nem sempre se cumprirão, que nem sempre serão justas com o próximo. E em dias de sol, de manhãs claras depois de bons livros terminados e de palavras que se querem mais do que partilhadas - o intuito é mesmo: fazer melhor.

Outro dia, alguém me dizia: porque um dia, o que fica mesmo, depois de todos aqueles que me conhecem morrerem, são as minhas palavras, são os meus livros, é o facto de ser o melhor escritor do mundo. Porque ser o melhor escritor do mundo não é o reflexo do número de livros vendidos ou o número de entrevistas dadas: ser o melhor escritor do mundo é apenas parte do - fazer melhor.

Fazer melhor aquilo que sabemos fazer, aquilo que de certa forma esperamos poder alcançar; fazer melhor aquilo em que somos bons, aquilo que nos tira o sono, aquilo que nos põe um sorriso nos lábios mesmos depois de semanas sem fim, em que fazer melhor pareceu de todo impossível.

Fazer melhor quando não há mesmo mais nada a fazer - do que fazer melhor!

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Friday, July 18, 2008

Sara

A Sara telefonava todos os dias. A sua voz era imprecisa por vezes… trémula, quase. Noutras vezes, ecoava as emoções dum bom dia. Também deixava mensagens de voz. Eram sempre palavras duma noctívaga em sofrimento. Em desespero. Em tumulto silenciado por um mundo corredio. Tenho saudades da Sara, da sua voz, da sua partilha - de tudo aquilo que tão bem reflectia a minha própria experiência diária, (mas que nunca fora partilhada).

Sonho. Ela percorre um corredor longo, de luz fosca - o seu rosto é quase como que se congelado. Não me olha. Não reflecte a emoção da minha presença ali. É como um ignorar que algum dia sequer fui a pessoa do outro lado da linha. É verdade… a linha não tem rosto, só voz e silêncio.

Quantas vezes não foram as nossas partilhas, partilhas de silêncio - de ausências pesadas, de palavras que não se querem ditas. Lembro-me da sua respiração. Do compasso. Do respirar fundo. E das lágrimas que mesmo não vistas sempre lá estiveram. Lembro-me de como é agora muito mais pesado o passar do tempo, dos dias, das horas.

Sonho. Chamo-a. E ela continua… caminhando. Mais uma vez ignorando a minha presença. Talvez não saiba da minha presença. Talvez a voz do outro lado da linha tenha um rosto diferente do meu. Talvez a voz do outro lado da linha não fosse a dum rosto dorido… extenuado… de silêncios desesperados. Talvez o meu rosto nunca tenha sido o rosto da voz do outro lado da linha que falava com a Sara.

Como sinto a sua falta. Como pode alguém deixar de precisar. Deixar de ter que partilhar. Como pode alguém deixar de precisar da outra voz para sobreviver mais um dia. Os meus gritos sempre foram de silêncio. As partilhas sempre foram dela. Mas acalmavam-me. Davam-me tranquilidade. E agora, agora… não sei. Vê-la caminhar sem me reconhecer é quase tão doloroso como o telefone que não toca. Como a voz feminina que diz que não há mensagens novas. Como a ausência dos silêncios de lágrimas partilhados.

Sara… Sara…

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Sunday, July 6, 2008

Novos Começos

Começares. Princípios. Ciclos. Alguém me disse - É normal estares assustada. Tem havido recomeçares na tua vida que foram muito dolorosos. Respiro fundo. Não respondo. A tensão repentina dos músculos do meu rosto dizem tudo. Começo a pensar em como vou empacotar. Como vou deixar tudo preparado para um talvez voltar mais tardio. Como vou dizer àqueles que me rodeiam que desta vez talvez seja de vez. Começares. Princípios duns e fins doutros. Ciclos que se parecem repetir, mas que nos lidam a destinos bem diferentes. Fico assustada. Talvez a surpresa até que seja boa. Ou talvez não. Não sei. Será que importa mesmo.

A menina dos sapatos vermelhos está estagnada em frente da montra. Olhos paralisados num horizonte pessoal. O reflexo parece imortalizado. Espera por alguém. Uma mão agarra a sua e deixa-se ir. Guiada. - Que queres tu? Que eu diga que não tem mal? Que pode ser? Que voltar não é um perder?Que queres tu? Deixa-se ir. E caminha. Sempre de cabeça erguida e olhar no horizonte.

Tenho medo.

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Friday, July 4, 2008

…diário de um daqueles dias…

Há dias em que as palavras parecem um atrapalho. Falar para quê? Explicar porquê? Se quando qualquer esforço neste sentido se sente mais do que forçado, não-natural, despropositado. Há dias em que se desejava o silêncio daqueles que sabem escutar… e passar.
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Tuesday, July 1, 2008

Sweet eyes…

- O telefona toca. Procuras palavras de conforto. O telefone toca. Sei que pouco ou nenhum conforto te posso dar.

- Agora, já longe, é bem mais difícil manter o contacto. As notícias vão chegando, escassas.

- A angústia daquele que vê e nada pode fazer é uma angústia que nos corrói silenciosamente. Nada é partilhado. Tudo é silenciado.

***

Olhos doces, os daqueles que sorriem em frente ao Tejo. Daqueles que, em momentos simbólicos, em momentos em que o olhar toca o horizonte, deixam existir. Deixam ser. Deixam prosseguir. Porque o conforto, as notícias, o recuperar daquilo que nos rodeia é sempre possível. Olhos doces, os daqueles que sabem que o Tejo tem sempre uma solução (um terminar ou iniciar).
Posted by The Assemblagist at 23:51:16 | Permalink | Comments (1) »

Entre Outras Coisas

Entre outras tantas coisas. Entre outros tantos detalhes e pormenores - como as horas passam, deixando leves marcas da sua mesma existência neste, que parece tão leve, percorrer dos tempos. Entre tantas outras coisas ficou a imagem desta porta - daquela casa que durante tantos anos foi a porta da casa do avô que me levava pela mão até ao café da aldeia para me comprar doces e que morreu quando ainda a vida parecia demasiado leve entre brincadeiras para ser relembrada. E também da avó que secava figos em tábuas na cozinha ao lado do sofá e que me dava para o lanche pão caseiro regado com azeite e coberto de açúcar.

Sinto-me revoltada… talvez triste… melancólica. Pela alteração, pela mutação forçada destas e outras memórias duma infância tão distante que por vezes questiono se alguma vez - experienciei. Sim, talvez não passe de mera construção fictícia daqueles que sempre viveram deslocados em diásporas não só físicas mas também mentais.

A porta… é somente algo entre outras coisas. À sua volta, a casa que protege, aos poucos esmorece e desaparece, o jardim foi tomado por máquinas, em seu redor já não existem cerejeiras ou nespereiras - só máquinas, e tapetes rolantes e tanques para águas residuais. Questiono. Será este o futuro do campo, da agricultura tradicional, das técnicas manuais que eu cresci a vêr serem executadas e que tanto prazer me davam fazer aquando era permitida a minha colaboração mínima e talvez mais disctractiva do que cooperativa.

A porta… que entre outras coisas talvez divida esses dias e o agora. Quem diria que eu aprendi a fazer queijo de ovelha manualmente e que descobri que para isso jeito não tinha? Que eu apanhava uva e ria quando via homens cantando e de calças enroladas enquanto a pisavam? A porta… que marca o passar do tempo - entre outras coisas, que me lembra que já lá vão mais de vinte anos desde a última vez que entrei naquela casa.

Posted by The Assemblagist at 16:20:48 | Permalink | No Comments »