Indeterminacy
De volta dos livros - agora em casa - abro o livro de capa azul, leio sobre Becket e Rimbaud, procuro palavras sobre Cage. Gosto de palavras assim: que se sentem abertas, que deixam no ar um aroma de indefinição, que me levam a abrir o dicionário em busca de novos significados, no caso de estar errada, distraída, perdida.
Escrevo agora sobre espaço urbano, a cidade, design, percepção, narrativas, ficção, impredictibilidade. Divago sobre assuntos cuja poesia parece tantas vezes insignificante. Perguntam-me de que se trata, qual a finalidade, qual a consequência. Querem saber como vou pagar a renda. O que vou fazer da vida. Para aonde vou. Mas as respostas são sempre vazias. Mesmo que existam, nunca chegam ao receptor.
Alguém me dizia hoje que projectos culturais enquanto projectos de dinaminização social são utopias de classe média, de quem pensa que quem vive nos subúrbios tem algum interesse em ir ao museu, ou ter acesso gratuito a um número indefinido de actividades culturais. Alguém me disse - sem dizer - que ‘indeterminacy’ em poesia, em música, em dança - é um um acto bem determinado de desperdício de recursos. Porque talvez eu, que escrevo sobre subjectividade e outras formas de percepção e narrativas fictícias - devia talvez ser arquitecta, ou designer paisagístico… ou engenheira. Devia ser, enquanto recurso humano, um recurso rentável.
Porque ‘indeterminacy’, indefinição, impredictabilidade - são quase um luxo neste lugar. Neste mundo em que tudo acaba, mais tarde ou mais cedo, por se resumir em termos de rentabilidade e productividade.