Momentos Virtuais
Eu sou pura projecção duma ilusão real num espaço virtual. Escrevo e divago sobre coisas sobre as quais noutras ocasiões me recusaria a opinar. Opinar é em muitas circunstâncias um defeito a evitar. Lá em casa toda a gente opina. Falamos uns sobre os outros. Gesticulamos. Levantamos a voz. E no fim, uns sentem-se mais realizados do que outros. As opiniões duns tendem sempre a prevalecer sobre a opinião de outros. Lá em casa aprendi que nem sempre a razão ganha. O que conta é mesmo a nossa capacidade de persuasão.
Aqui eu projecto-me como aquele que prevalece - afinal não tenho ninguém para refutar aquilo que digo. E se tiver, é fácil de ignorar. Basta um clique e tais comentários não desejados são apagados do ecrã.
Na verdade, hoje o que me atormenta o espírito não é a minha atitude opinativa ou não, mas sim a minha existência ‘pós-humana’. No filme ‘Star Treck’, segundo Katherine Hayles, ‘o corpo pode facilmente ser desmaterializado num padrão informativo para se novamente se materializar, sem qualquer alteração no corpo inicial a uma distância remota.’ E hoje, eu questiono-me se esta mesma última materialização poderia ser virtual. Se eu, de forma abstracta, me desmaterializar enquanto corpo físico e me materializar novamente enquanto corpo abstracto… poderei eu continuar a existir enquanto ser físico – mas com duas existências paralelas – aquela física e a abstracta, que se materializa aqui mesmo, enquanto escrevo?
A existência ‘pós-humana’ tão discutida no campo do ‘cybernectics’ dá voltas na minha imaginação – e desejo assim criar uma recriação de algo que nunca deixou de existir no campo físico mas que se pode alienar num campo virtual.
Serão informação e materialidade realidades distintas? Será que a informação em nada depende duma fisicalidade para existir? E será a informação algo mais importante e fundamental do que a materialismo em si mesmo?
Serei eu enquanto ser físico um ser menor do que enquanto um ser informativo?
Sim, porque para ser uma realidade informativa eu não preciso de existir fisicamente. Eu poderia criar um sistema que segue certos padrões de criatividade que de certa forma se regem pelos meus próprios padrões e que após a minha existência física terminasse continuasse o trabalho criativo até aí desenvolvido por mim enquanto ser físico.
Onde estaria então a diferença? Onde estaria então a fronteira entre o que eu sou capaz de criar e o que o sistema que eu construiria seria capaz de desenvolver?
E se eu construísse esse mesmo sistema agora e partir dum certo momento passasse a minha tarefa criativa para as suas mãos, teria eu mais do que uma existência paralela?
Shannon diz que a informação é um padrão, que não requer presença. Se a informação que crio e passo não necessita duma presença real, como poderemos nós confirmar a origem dessa mesma informação? E se o padrão se torna mais importante do que a presença, então a informação torna-se independente e de fácil mobilidade, independente dum mundo real. A informação torna-se então a essência – e torno-me apenas parte dessa condição de virtualidade.